Toda terça-feira, há 5 anos, o físico Luiz Alberto Oliveira vem falar de filosofia aqui. É muito útil. Ninguém quer ser intelectual, mas a gente fica com uma idéia do planeta, que está lá no fim da galáxia, longe de tudo. Isso dá a você uma idéia melhor da precariedade do ser humano, que é um fodido. Nasce, morre, como outro bicho qualquer, então por isso mesmo ele deve ser mais modesto, não pensar que é importante. O sujeito que pensa que é importante é para mim um débil mental. -Oscar Niemeyer

terça-feira, agosto 30, 2005

Kafka: O Veredito / Na Colônia Penal



Trazemos à lume algumas recensões, feitas há algum tempo e só não publicadas anteriormente por não estarem suficientemente boas, ou talvez, por estarem ainda demasiadamente ridículas: O Veredito e Na Colônia Penal, duas obras bastante diversas, ainda que interligadas por tênues linhas, oriundas da pena surpreendente e genial de Franz Kafka. Kafka parece padecer pesadamente de seu drama pessoal, familiar - o frustrante relacionamento com o pai, autoridade -, da extrema miserabilidade de sua Judengassen, um dos guetos mais antigos de toda a Europa, o qual Gustav Meyrink (ver O Golem) descrevia como um "mundo subterrâneo demoníaco", ainda, de seu paradoxal sentimento de autorepulsa, de sua 'desidentidade' enquanto judeu nascido tcheco, falando alemão, mas que segundo Mairowitz (1), não era nem uma coisa nem outra, e também do momento histórico, político e social pelo qual atravessava a Europa. Viver na Praga nacionalista daqueles dias, para um judeu, convivendo com a miserabilidade e a ameaça do anti-semitismo, não poderia ser uma experiência agradável. "O que tenho em comum com os judeus? Eu nem tenho nada em comum comigo mesmo!" Conforme comentado alhures, aquilo que Weber chamaria de racionalização ou desencantamento do mundo parece perseguir o autor. <- reescrever esse parágrafo



Camus dizia que "toda arte de Kafka consiste em obrigar o leitor a reler" (2). Kafka é um dos expoentes mais impressionantes do expressionismo (!) e do simbolismo. Indeed, o simbolismo permite tantas interpretações quantas formos capazes de fazer -- daí a necessidade da releitura. O símbolo ultrapassa a dimensão da própria palavra, do léxico e da semântica, podendo ser uma idéia e várias ao mesmo tempo, a própria dimensão do imaginário. Kafka não permite interpretação literal, e tentar interpretá-lo, por fim, é verdadeira aporia. O que se faz aqui, então? Em determinado momento ficaremos em dúvida se aquele com quem o personagem principal troca tantas correspondências em O Veredicto realmente existe. Os personagens parecem desconhecer, ou mesmo, ser completamente incapazes de dominar os acontecimentos que lhes dizem respeito. O Deus de Kafka é inalcançável. Joseph K. acorda certa manhã, acusado por um crime que ele nunca cometeu e sequer sabe qual foi. E a perplexidade fica por conta da reação do personagem: para ele, o que acontece parece absolutamente natural - o mesmo ocorre com Gregor Samsa, sua condição 'periplanetal' o preocupa menos do que, por exemplo, o seu trabalho e a miserabilidade de sua família. Desta forma, seus personagens, resignados, demonstram a submissão ao cotidiano, por mais irracional que este pareça, em uma dimensão onírica da realidade. Sua linguagem simbólica faz com que qualquer de suas tramas possam passar de forma inacreditavelmente natural aos acontecimentos mais bizarros, transita com perfeição nas sendas da ambiguidade, entre o natural e o extraordinário, o lógico e o absurdo. Em Kafka, o lógico conduz ao absurdo; ainda segundo Camus, "seu segredo é encontrar o ponto exato em que eles se encontram, em sua maior desproporção". Kafka? Genial, GENIAL!! :stoned: :stoned:


(1) MAIROVITZ, D. Z., CRUMB, Robert. Kafka. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 2006.
(2) CAMUS, Albert. A Esperança e o Absurdo na obra de Franz Kafka In: O Mito de Sísifo. Rio de Janeiro: Record, 2004

O texto de Kafka é direto, minucioso, mas sem floreios; poder-se-ia dizer "uma escrita dolorida, não necessariamente primando pelo caráter estético" (deixemos isto para um Paul Valéry, Balzac ou Joyce), digamos antes, uma escrita calcada na dor e no humor kafkiano. Entretanto, seu caráter simbólico torna também impossível uma interpretação detalhada de Kafka. Em O Veredicto, temos uma novela realista, de tessitura tensa e dramática -- com uma riqueza de detalhes capaz de tornar os delírios da ficção em algo plausível e até verossímil --, que conduz até o final o clima de dúvida e desconfiança que paira entre os personagens, com um desfecho surpreendente, terrível. Já em Na Colônia Penal, encontramos mesmo a literatura fantástica, marcada pelo macabro, pelo obscuro, onde uma máquina de execução, ominosa, parece criar vida própria para ceifar a vida daqueles que a ela são, em agonia, submetidos. Em contrapartida, o ser humano aparece brutal e engenhosamente representado na figura daquele que é, da máquina belial, o operador, zeloso responsável por sua manutenção, o oficial, o estado/deus-ex-machina.


Observam-se verdadeiros tratados sobre a natureza do ser humano e sua existência - portanto, de enorme pronfundidade filosofófica -, englobando abordagens psicánalíticas, sociológicas, dentre silogismos diversos, mas principalmente, uma defesa da própria condição de humanidade, um libelo à "humanização" da sociedade. A necessidade de se colocar os valores morais acima dos valores políticos, de elevar a condição do homem como um fim em si mesmo, acima de qualquer outro.


O Veredito

Personagens: Georg Bendemann, seu pai, Frieda Brandenfeld
Autor: Franz Kafka
Escrito em 1912
Tradução: Modesto Carone
Editora: Companhia das Letras

Esta é uma surpreendente novela, onde Georg Bendemann, personagem central, aparece envolvido em um irreconciliável dilema: anunciar ou não o seu noivado para um amigo distante, há muitos anos refugiado na Rússia. Georg dispende enorme esforco imaginando qual série de desventuras este amigo teria supostamente passado durante o longo período de distanciamento, dentre inúmeras correspondências enviadas e nunca respondidas; tentando ainda encontrar uma forma adequada, ou ao menos não dolorosa de comunicar a seu infortunado amigo uma grande alegria, o seu noivado. Georg cria tal fantasia em torno deste amigo que a grande dúvida que irá pairar sobre o texto, até o final, é se este amigo realmente existiria ou se seria invenção sua. Georg aparenta estar tão preocupado com a reação do amigo, envolve-se de tal forma em suposições e preocupações formais, frutos de sua imaginação, que o amigo “real” adquire um caráter mítico - na sua cabeça - e quase esquizofrênico, ao menos para o leitor. Em determinado momento, o pai do personagem irá enquirir: “Georg, você tem realmente este amigo?”.

A mãe do personagem já é falecida, mas o pai, durante a narrativa é descrito como uma figura bipolar: ora frágil, ora de uma força descomunal, mas sem deixar de aparecer como uma figura manipuladora. O pai parece, quase sempre, o estar julgando. É no derradeiro diálogo com o pai que surgirá a verdade -- o veredicto, que em uma análise minuciosa pode ser aduzida também do próprio título da obra --, onde este finalmente urde toda a verdade: a traição de Georg para com o amigo, culminada em seu noivado. Eis então que a preocupação em torno da notificação de noivado para o amigo adquire, ao menos a meu juízo, um caráter de sentimento de culpa. E é aquela figura paterna que faz a acusação, é o pai que julga e profere a sentença, com tanta força e veemência que encontrará em Georg o próprio executor: este atira-se de uma ponte, suicida. Mas não sem antes, em voz baixa, dizer aos pais que os amava. Kafka parece EXALTAR uma solução drástica para livrar seu personagem da figura opressora do pai: a morte como evasão, reveladora de suas próprias idiossincrasias. Todavia, parece mesmo que Kafka/Georg nunca se suicida: é sempre condenado à morte.


Na Colônia Penal

Personagens: “o oficial”, “o explorador”, “o condenado”
Autor: Franz Kafka
Escrito em 1914
Tradução: Modesto Carone
Editora: Companhia das Letras

Em Na Colônia Penal, a história afasta-se de um drama meramente familiar e adquire cunho político, onde destacam-se figuras de autoritarismo e poder, a burocratização do Estado, a “desumanização” do homem, a expressão de um Direito rigoroso, ultra potestativo e cruel, onde juiz e executor são um e um só. Um soldado é condenado à morte por motivo ridículo: ter dormido durante o serviço. E como agravante, por ter respondido de forma considerada ofensiva a uma autoridade, quando interpelado durante o sono. Esta execução causa enorme surpresa ao explorador, visitante, e indignação diante da revelação do oficial de que o condenado sequer fora ouvido, não tivera direito a defesa, e durante o "processo", sequer era sabedor da própria sentença. A punição é insanamente desproporcional. Não existe Due Process of Law, contraditório, ampla defesa. Tem-se presunção de culpa: ele era culpado, PERIOD. A execução que aguarda o réu é bizarra: morrer dolorosamente, após demorada tortura, em uma máquina que escreverá, em seu corpo - através de “estiletes” de ferro conduzidos pela máquina e minuciosamente programados pelo oficial -, aquilo que fora razão da condenação.

Enquanto o oficial descreve e trata a máquina com tanto zelo e carinho, o sofrimento do soldado é visto como algo banal –- uma banalização da violência, onde observa-se uma nítida inversão de valores. O oficial não se vê na posição de quem comete atrocidades, mas, tal qual uma protótipo "eichmanniano" (ver Hannah Arendt, Eichmann em Jerusalém), como aquele que fria e cegamente obedece ordens. Poder-se-ia dizer ainda que é o típico exemplo do burocrata weberiano, não tão-somente aquele que é burocrata enquanto parte do aparato Estatal, mas burocrata enquanto aquele que não raciocina sobre fins, raciocina sobre meios.

Nâo obstante, deseja ainda o oficial obter a aprovação do explorador quanto a seus procedimentos, pois neste momento (sob novo comandante nada afeito às antigas instruções), ele é o único na Colônia Penal a defender a utilização da máquina - ou seja, a aprovação e aval do explorador, enquanto observador, torna-se de suma importância. Explica-lhe então o explorador a injustiça com a qual percebe o processo. O oficial, não encontrando saída, então pressupondo que a máquina que tanto lhe aprazia e motivava provavelmente seria extinta, sujeita-se ao mesmo castigo impetrado a seus executados: pena capital sob extrema e hórrida tortura. Forças ominosas da malebolgia burocrática, Deus Ex-Machina, soerguei-vos dos ínvios báratros pestilenciais contra o Homem-Criador!! Um final macabro, bizarro, amargo, mas que, à moda do Talião, parece fazer justiça: a morte do executor pela máquina executora, uma justiça surpreendente, a um só tempo terrível e poética.




reescrever o texto inteiro, pqp

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Books

  • CHESTERTON, G. K.. Ortodoxia
  • CLAUSEWITZ, Carl von. Der Krieg
  • COLERIDGE, S. T. Biographia Literaria
  • EVOLA, Julius. Men Among the Ruins
  • GUDERIAN, Generaloberst Heinz. Panzer Leader
  • GUÉNON, René. The Crisis of the Modern World
  • JUNGER, Ernst. Storm of Steel
  • SCHMITT, Carl. Der Begriff des Politischen
  • SWIFT, Jonathan. Panfletos Satíricos

Fave music:

Syd Barrett's Pink Floyd, Cream & Clapton, King Crimson, Univers Zero, Heldon, Faust, Magma, Mahavishnu Orchestra, Miles Davis, Astor Piazzola, Frank Zappa, Marty Friedman, Al Di Meola, Jefferson Airplane, Led Zeppelin, Funkadelic, Allman Brothers, Blue Cheer, Beatles, U2, Chrome, Velvet Underground, The Stooges, John Cage, Villa-Lobos, Beethoven, Bartók, Stravinsky, Bach... & Coltrane, Coltrane, Coltrane, C-O-L-T-R-A-N-E-!

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