Toda terça-feira, há 5 anos, o físico Luiz Alberto Oliveira vem falar de filosofia aqui. É muito útil. Ninguém quer ser intelectual, mas a gente fica com uma idéia do planeta, que está lá no fim da galáxia, longe de tudo. Isso dá a você uma idéia melhor da precariedade do ser humano, que é um fodido. Nasce, morre, como outro bicho qualquer, então por isso mesmo ele deve ser mais modesto, não pensar que é importante. O sujeito que pensa que é importante é para mim um débil mental. -Oscar Niemeyer

terça-feira, agosto 30, 2005

Kafka: O Veredito / Na Colônia Penal



Trazemos à lume algumas recensões, feitas há algum tempo e só não publicadas anteriormente por não estarem suficientemente boas, ou talvez, por estarem ainda demasiadamente ridículas: O Veredito e Na Colônia Penal, duas obras bastante diversas, ainda que interligadas por tênues linhas, oriundas da pena surpreendente e genial de Franz Kafka. Kafka parece padecer pesadamente de seu drama pessoal, familiar - o frustrante relacionamento com o pai, autoridade -, da extrema miserabilidade de sua Judengassen, um dos guetos mais antigos de toda a Europa, o qual Gustav Meyrink (ver O Golem) descrevia como um "mundo subterrâneo demoníaco", ainda, de seu paradoxal sentimento de autorepulsa, de sua 'desidentidade' enquanto judeu nascido tcheco, falando alemão, mas que segundo Mairowitz (1), não era nem uma coisa nem outra, e também do momento histórico, político e social pelo qual atravessava a Europa. Viver na Praga nacionalista daqueles dias, para um judeu, convivendo com a miserabilidade e a ameaça do anti-semitismo, não poderia ser uma experiência agradável. "O que tenho em comum com os judeus? Eu nem tenho nada em comum comigo mesmo!" Conforme comentado alhures, aquilo que Weber chamaria de racionalização ou desencantamento do mundo parece perseguir o autor. <- reescrever esse parágrafo



Camus dizia que "toda arte de Kafka consiste em obrigar o leitor a reler" (2). Kafka é um dos expoentes mais impressionantes do expressionismo (!) e do simbolismo. Indeed, o simbolismo permite tantas interpretações quantas formos capazes de fazer -- daí a necessidade da releitura. O símbolo ultrapassa a dimensão da própria palavra, do léxico e da semântica, podendo ser uma idéia e várias ao mesmo tempo, a própria dimensão do imaginário. Kafka não permite interpretação literal, e tentar interpretá-lo, por fim, é verdadeira aporia. O que se faz aqui, então? Em determinado momento ficaremos em dúvida se aquele com quem o personagem principal troca tantas correspondências em O Veredicto realmente existe. Os personagens parecem desconhecer, ou mesmo, ser completamente incapazes de dominar os acontecimentos que lhes dizem respeito. O Deus de Kafka é inalcançável. Joseph K. acorda certa manhã, acusado por um crime que ele nunca cometeu e sequer sabe qual foi. E a perplexidade fica por conta da reação do personagem: para ele, o que acontece parece absolutamente natural - o mesmo ocorre com Gregor Samsa, sua condição 'periplanetal' o preocupa menos do que, por exemplo, o seu trabalho e a miserabilidade de sua família. Desta forma, seus personagens, resignados, demonstram a submissão ao cotidiano, por mais irracional que este pareça, em uma dimensão onírica da realidade. Sua linguagem simbólica faz com que qualquer de suas tramas possam passar de forma inacreditavelmente natural aos acontecimentos mais bizarros, transita com perfeição nas sendas da ambiguidade, entre o natural e o extraordinário, o lógico e o absurdo. Em Kafka, o lógico conduz ao absurdo; ainda segundo Camus, "seu segredo é encontrar o ponto exato em que eles se encontram, em sua maior desproporção". Kafka? Genial, GENIAL!! :stoned: :stoned:


(1) MAIROVITZ, D. Z., CRUMB, Robert. Kafka. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 2006.
(2) CAMUS, Albert. A Esperança e o Absurdo na obra de Franz Kafka In: O Mito de Sísifo. Rio de Janeiro: Record, 2004

O texto de Kafka é direto, minucioso, mas sem floreios; poder-se-ia dizer "uma escrita dolorida, não necessariamente primando pelo caráter estético" (deixemos isto para um Paul Valéry, Balzac ou Joyce), digamos antes, uma escrita calcada na dor e no humor kafkiano. Entretanto, seu caráter simbólico torna também impossível uma interpretação detalhada de Kafka. Em O Veredicto, temos uma novela realista, de tessitura tensa e dramática -- com uma riqueza de detalhes capaz de tornar os delírios da ficção em algo plausível e até verossímil --, que conduz até o final o clima de dúvida e desconfiança que paira entre os personagens, com um desfecho surpreendente, terrível. Já em Na Colônia Penal, encontramos mesmo a literatura fantástica, marcada pelo macabro, pelo obscuro, onde uma máquina de execução, ominosa, parece criar vida própria para ceifar a vida daqueles que a ela são, em agonia, submetidos. Em contrapartida, o ser humano aparece brutal e engenhosamente representado na figura daquele que é, da máquina belial, o operador, zeloso responsável por sua manutenção, o oficial, o estado/deus-ex-machina.


Observam-se verdadeiros tratados sobre a natureza do ser humano e sua existência - portanto, de enorme pronfundidade filosofófica -, englobando abordagens psicánalíticas, sociológicas, dentre silogismos diversos, mas principalmente, uma defesa da própria condição de humanidade, um libelo à "humanização" da sociedade. A necessidade de se colocar os valores morais acima dos valores políticos, de elevar a condição do homem como um fim em si mesmo, acima de qualquer outro.


O Veredito

Personagens: Georg Bendemann, seu pai, Frieda Brandenfeld
Autor: Franz Kafka
Escrito em 1912
Tradução: Modesto Carone
Editora: Companhia das Letras

Esta é uma surpreendente novela, onde Georg Bendemann, personagem central, aparece envolvido em um irreconciliável dilema: anunciar ou não o seu noivado para um amigo distante, há muitos anos refugiado na Rússia. Georg dispende enorme esforco imaginando qual série de desventuras este amigo teria supostamente passado durante o longo período de distanciamento, dentre inúmeras correspondências enviadas e nunca respondidas; tentando ainda encontrar uma forma adequada, ou ao menos não dolorosa de comunicar a seu infortunado amigo uma grande alegria, o seu noivado. Georg cria tal fantasia em torno deste amigo que a grande dúvida que irá pairar sobre o texto, até o final, é se este amigo realmente existiria ou se seria invenção sua. Georg aparenta estar tão preocupado com a reação do amigo, envolve-se de tal forma em suposições e preocupações formais, frutos de sua imaginação, que o amigo “real” adquire um caráter mítico - na sua cabeça - e quase esquizofrênico, ao menos para o leitor. Em determinado momento, o pai do personagem irá enquirir: “Georg, você tem realmente este amigo?”.

A mãe do personagem já é falecida, mas o pai, durante a narrativa é descrito como uma figura bipolar: ora frágil, ora de uma força descomunal, mas sem deixar de aparecer como uma figura manipuladora. O pai parece, quase sempre, o estar julgando. É no derradeiro diálogo com o pai que surgirá a verdade -- o veredicto, que em uma análise minuciosa pode ser aduzida também do próprio título da obra --, onde este finalmente urde toda a verdade: a traição de Georg para com o amigo, culminada em seu noivado. Eis então que a preocupação em torno da notificação de noivado para o amigo adquire, ao menos a meu juízo, um caráter de sentimento de culpa. E é aquela figura paterna que faz a acusação, é o pai que julga e profere a sentença, com tanta força e veemência que encontrará em Georg o próprio executor: este atira-se de uma ponte, suicida. Mas não sem antes, em voz baixa, dizer aos pais que os amava. Kafka parece EXALTAR uma solução drástica para livrar seu personagem da figura opressora do pai: a morte como evasão, reveladora de suas próprias idiossincrasias. Todavia, parece mesmo que Kafka/Georg nunca se suicida: é sempre condenado à morte.


Na Colônia Penal

Personagens: “o oficial”, “o explorador”, “o condenado”
Autor: Franz Kafka
Escrito em 1914
Tradução: Modesto Carone
Editora: Companhia das Letras

Em Na Colônia Penal, a história afasta-se de um drama meramente familiar e adquire cunho político, onde destacam-se figuras de autoritarismo e poder, a burocratização do Estado, a “desumanização” do homem, a expressão de um Direito rigoroso, ultra potestativo e cruel, onde juiz e executor são um e um só. Um soldado é condenado à morte por motivo ridículo: ter dormido durante o serviço. E como agravante, por ter respondido de forma considerada ofensiva a uma autoridade, quando interpelado durante o sono. Esta execução causa enorme surpresa ao explorador, visitante, e indignação diante da revelação do oficial de que o condenado sequer fora ouvido, não tivera direito a defesa, e durante o "processo", sequer era sabedor da própria sentença. A punição é insanamente desproporcional. Não existe Due Process of Law, contraditório, ampla defesa. Tem-se presunção de culpa: ele era culpado, PERIOD. A execução que aguarda o réu é bizarra: morrer dolorosamente, após demorada tortura, em uma máquina que escreverá, em seu corpo - através de “estiletes” de ferro conduzidos pela máquina e minuciosamente programados pelo oficial -, aquilo que fora razão da condenação.

Enquanto o oficial descreve e trata a máquina com tanto zelo e carinho, o sofrimento do soldado é visto como algo banal –- uma banalização da violência, onde observa-se uma nítida inversão de valores. O oficial não se vê na posição de quem comete atrocidades, mas, tal qual uma protótipo "eichmanniano" (ver Hannah Arendt, Eichmann em Jerusalém), como aquele que fria e cegamente obedece ordens. Poder-se-ia dizer ainda que é o típico exemplo do burocrata weberiano, não tão-somente aquele que é burocrata enquanto parte do aparato Estatal, mas burocrata enquanto aquele que não raciocina sobre fins, raciocina sobre meios.

Nâo obstante, deseja ainda o oficial obter a aprovação do explorador quanto a seus procedimentos, pois neste momento (sob novo comandante nada afeito às antigas instruções), ele é o único na Colônia Penal a defender a utilização da máquina - ou seja, a aprovação e aval do explorador, enquanto observador, torna-se de suma importância. Explica-lhe então o explorador a injustiça com a qual percebe o processo. O oficial, não encontrando saída, então pressupondo que a máquina que tanto lhe aprazia e motivava provavelmente seria extinta, sujeita-se ao mesmo castigo impetrado a seus executados: pena capital sob extrema e hórrida tortura. Forças ominosas da malebolgia burocrática, Deus Ex-Machina, soerguei-vos dos ínvios báratros pestilenciais contra o Homem-Criador!! Um final macabro, bizarro, amargo, mas que, à moda do Talião, parece fazer justiça: a morte do executor pela máquina executora, uma justiça surpreendente, a um só tempo terrível e poética.




reescrever o texto inteiro, pqp

sábado, abril 30, 2005

Crítica ao Espírito do romantismo



    Em Diekunst, mit frauen umzugehen, ou A Arte de lidar com as mulheres, Schopenhauer define o amor como um mal. E escreve acerca do romantismo: "O romantismo é um produto do cristianismo. Religiosidade exagerada, veneração fantástica às mulheres e valentia cavalheiresca, portanto Deus, a dama e a espada são símbolos daquilo que é romântico."

    Como ele explicaria o romantismo para um ateu? Bem, no momento, não interessa. Veja bem, caro leitor: não pretendo me referir ao romantismo enquanto determinado período histórico ou movimento artístico ou literário, mas enquanto algo que se desvela em dor derramada, em dor-de-cotovelo, em um derrotismo inexoravelmente improdutivo e patético. E mesmo no campo das artes, se não conduzida por uma mente capaz de oferecer-lhe vazão em verve de genialidade, esvai-se em uma representação estética irremediavelmente brega ou cafona. Há algo mais conservador e reaccionário do que o romantismo? Pode até haver, mas nesse momento não me ocorre. O romantismo está para o conservadorismo como a manutenção do status quo, há uma enorme aversão e receio de mudanças. E a espécie de romantismo à qual me refiro é aquela que atrai covardes e pusilânimes de todos os gêneros. Súcia da qual, para minha vergonha, já fiz parte. Já tentei ser o mais idealista e altruísta dos românticos, mas de tanto apanhar, chega-se a um ponto no qual não se sente mais dor. Poderia ser essa a cura? Bem, esta só veio, efetivamente, quando pude ouvir as vozes da autocrítica, do juízo estético, do pragmatismo, da serenidade, da maturidade e da racionalidade. Homens choram ou não? Bem, já não interessa responder a essa questão, tanto faz. Guerreiros aprendem a enterrar os seus e a seguir a batalha, niemals kapitulieren.

    Uma das características mais marcantes do mal-do-século, além do romantismo desenfreado, é o sentimento de evasão, fuga da realidade, cultivar paisagens, lugares e épocas distantes, cultivar a morte. Evasão de algo para o qual aparentemente não há escapatória, um sentimento perseverante de dor, um quase claustrofobia para a qual a única saída seria gritar "pára o mundo que eu quero descer!" Pode chegar às vias da autocomiseração. Sentimento de quem vive no passado, morre no presente, nega o futuro. Bem ou mal, a vida continua, e o fato do agonizante considerar ter uma existência terrível não impede que ele tenha uma existência terrível.

    Tal paixão é uma doença, o mal dos tolos; não sendo juízo de valor, não necessita ser racionalmente justificada. Ora, espera-se tudo de um uma alma apaixonada, menos sensatez! Se a finalidade do homem é a realização de suas potencialidades, cultiva-se um objeto ideal, impossível, irrealizável. Este ser, incapaz de discernir, perde a identidade, desconhece sua essência, desconhece a si próprio e aquilo que o cerca. Nos moldes do que seriam a fragmentação do Espírito para Hegel, a religião para Feuerbach ou a economia para Marx, o romantismo é alienação. Alienação para a qual a única forma de libertação seria o chamamento para a razão e o pragmatismo. Meu amigo Alphonse Van Worden certa vez escreveu "é infinitamente mais lógico deletar o passado a limitar o presente"; com efeito, se é para sermos românticos, sejamos com aquilo que é possível e realizável!!

    "Dias há que n'alma me tem posto um não sei quê, que nasce não sei onde, vem não sei como, e dói não sei porquê." Este seria o pensamento de um loser. Se Camões foi genial, mesmo o mais genial dos homens será esquecido. Não tenhamos a pretensão de ser "Camões", quando nos dermos conta, a vida nos terá atropelado!

    E como diria o bom e velho Che, hay que endurecer, pero sin perder la ternura jamás.

quinta-feira, abril 21, 2005

Jmpertjnêncjas


Ev e mjnha mjgvcha Kaká, no bar Sierra Maestra, lá pelo dja 9 de abrjl. Reparem no sorrjso jmpertjnente da Mona Ljsa. É, o blog anda bem despojadjnho. Vm gverrejro nvnca se dejxa abater! :p

¡¡¡LLJK DNA LATEM YVÆH!!!

segunda-feira, abril 11, 2005

Dica para o "polvo"




A quem interessar:

Goethe Institut - Curso de Alemão para Juristas

Dias: 6 de Maio a 24 de Junho, às sextas-feiras
Horário: das 18h30 às 21h45
Matrículas: 18 a 20 de Abril

Valores: R$ 392 + taxa de matrícula (R$ 50 para novos alunos)
Informações - Fone: 32227832
Rua 24 de Outubro, 112

domingo, abril 03, 2005

Vma vjsjta jlvstre e o strogonoff da Kaká



Tive a enorme satisfação e privilégio de receber o insígne professor Marco Bataglia, vindo de SP, durante o advento da Páscoa, durante a qual a programação estava formidável - exceto por um barzinho extremamente enfumaçado (o qual peço desculpas, também não suporto cigarros). Conversas sobre música, livros, mulheres (nossa, quando inventam de criar problemas...) até mesmo política, durante uma inusitada troca de idéias com um maluco que resolveu me interpelar na Usina do Gasômetro, sobre Marx. Marco deve ter ficado com a impressão de que só há loucos nessa cidade. Anyway, além de ir na exposição do Miró no Santander (FENOMENAL!! O lugar é tão lindo que é difícil eleger o que olhar: a arquitetura, o Miró ou les belles femmes que lá circulavam), restaurantes (fiquei devendo uma churrascada no 'Na Brasa' ou um frutos-do-mar na Mosquiteiro), cafés, de inúmeros passeios e até uma volta de barco, pude conhecer coisas sobre minha cidade que até eu desconhecia! No último dia, culminando as festividades, o já famoso strogonoff da Kaká fecha com chave de ouro (quem não conhece, não sabe o que está perdendo).


Cebola picadinha, cortesia de monsieur Batalha


Eis o STROGONOFF!! Voilá!!


Marco e a 'chef' Kaká, presenças marcantes


Feijão. Sacaunagem, ficou só olhando.

Para não deixar o leitor apenas na vontade, vou improvisar uma receita de strogonoff por aqui:

600 gr de Filet Mignon em cubos ou tiras pequenas;
1 caixa de extrato de tomate
1 pote de cogumelos
1 dose de vinho tinto
1 cebola (picada em pedaços pequenos), 1 dente de alho e 1 tomate sem semente
1 caixa de creme de leite (coloque apenas no final, senão talha)
1 saco de batata palha

acompanhamento? Arroz ao funghi Tio João (é só colocar o pacotinho em água fervendo e temperar. Não deixa a Kaká fazer, fica um grude)!

Abraços




Música do dia?


La donna é mobile
Qual piuma al vento,
Muto d’accento - e di pensiero.

Giuseppe Verdi


__________________________
Feliz é aquele que sabe ao certo o que procura, porque quem não sabe o que procura, não vê quando encontra.
(Claude Bernard)

quarta-feira, março 02, 2005

Uma recomendação de leitura



    Há pouco li um livrinho (o formato é pocket) de grande valor informativo, Modernismo Brasileiro e Vanguarda, escrito por Lúcia Helena, professora da UFRJ. Em um texto bastante didático e com boa dose de erudição e clareza (sem contudo aprofundar-se além do necessário), a autora expõe os rumos da pesquisa estética através de movimentos que modificaram radicalmente a história da arte no decorrer do séc. XX, uma overview de movimentos como futurismo, expressionismo, cubismo, dadaísmo e surrealismo, e as implicações e reflexos destes movimentos da vanguarda européia na situação cultural, social e política brasileira. O futurismo desencadearia, no Brasil, durante a Semana de Arte Moderna de 1922, o movimento conhecido como Modernismo. A autora relata ainda as relações destes movimentos em conflito com os ideais primitivistas, ufanistas, conservadores, etc. Um relato preciso da vanguarda vista como uma ruptura nos "moldes acadêmicos e conservadores de uma arte envelhecida e cristalizada", no que ela descreve como "valorização da linguagem enquanto tema e objeto da própria arte, a insatisfação do criador em face de procedimentos já sedimentados e a busca de penetrar nos domínios do inconsciente". Um livro agradável, mas o que de facto me entusiasmou foi a óptima relacção "conteúdo informativo" vs. "rapidez de leitura".



    Não obstante, neste intermezzo, tive acesso a trechos de "Manifesto do futurismo", "Manifesto técnico da literatura futurista" e "Suplemento ao manifesto técnico da literatura italiana", de Fillippo Marinetti (1876-1944), bem como o manifesto cubista de Guillaume Apollinaire, o sensacional Manifesto Dada de Tristan Tzara (que eu bem já conhecia) e "A bofetada no gosto público", trazendo à lume o Cubofuturismo russo de Burliuk, Khlebnikov, Kruchenik e Maiakovsky. Todos impressionantes.

Manifesto do Futurismo (1909, publicado no jornal francês Le Figaro)

1. Nós queremos cantar o amor ao perigo, o hábito à energia e à temeridade.
2. Os elementos essenciais de nossa poesia serão a coragem, a audácia e a revolta.
3. Tendo a literatura até aqui enaltecido a imobilidade pensativa, o êxtase e o sono, nós queremos exaltar o movimento (...), a bofetada e o soco.
4. Nós declaramos que o esplendor do mundo se enriqueceu de uma coisa nova: a beleza da velocidade. Um automóvel de corrida com seus cofres adornados por grossos tubos como serpentes defôlego explosivo... um automóvel rugidor, que parece correr sobre a metralha, é mais belo que a Victoria de Samotraccia.
5. Nós queremos cantar o homem que está na direcção, cuja haste ideal atravessa a Terra, arremessada sobre o circuito de sua órbita.
(...)
7. Não há mais beleza senão na luta. Nada de obra-prima sem um caráter agressivo. A poesia deve ser como um assalto violento contra as forças desconhecidas, para intimá-las a deitar-se diante do homem.
(...)
9. Nós queremos glorificar a guerra -- cuja higiene do mundo -- o militarismo, o patriotismo, o gesto destruidor dos anarquistas, as belas idéias que matam, e o menosprezo à mulher.
10. Nós queremos demolir os museus, as bibliotecas, combater o moralismo, o feminismo e todas as covardias oportunistas e utilitárias.
(...)
É para a Itália que nós lançamos este manifesto de violência agitada e incendiária, pela qual fundamos o FUTURISMO, porque queremos livrá-la de sua gangreana de professores, de arqueólogos, de cicerones e antiquários.

Manifesto Técnico da literatura futurista

1. É preciso destruir a sintaxe, dispondo os substantivos ao acaso, como nascem.
2. Deve-se usar o verbo no infinito, para que se adapte elasticamente ao substantivo e não o submeta ao "eu" do escritor que observa ou imagina. (...)
3. Deve-se abolir o adjectivo, para que o substantivo desnudo conserve a sua cor essencial. (...)
4. Deve-se abolir o advérbio, velha fivela que une as palavras umas às outras.



That's it, enjoy!
Best regards, yours truly
.

sexta-feira, janeiro 07, 2005

Avaliação 2004


2004 foi um ano em que TUDO deu certo. Um ano de muitas mudanças. Saí do que chamaria um estado de "blues" para adquirir o que chamo de "espírito guerreiro". Um ano vitorioso, senti-me bastante realizado. Não é fácil começar do "zero", mas deu certo, até mesmo aquilo que tinha tudo para dar errado! É, eu deveria ter jogado na loteria!

"Estar de bem com a vida só depende de nós". É, em grande medida, acredito nisso. Depende da maneira com a qual 'encaramos' essa vidinha como ela se nos apresenta. Acredito que, no momento em que acabou, acabou, não há nada após. Só o pó. Resta aproveitar e tentar ser feliz. E o aprendizado que tive é de que ela não deve ser levada com muita seriedade ou gravidade (ou melhor, a vida não é para ser levada a sério - this is where happiness belongs!); e, importantíssimo, manter o espírito guerreiro sempre! Se está ruim, coragem para mudar; se está bom, podemos deixar ainda melhor. Basta determinação, perseverança, coragem, convicção, estabelecer objetivos e acreditar no que se deseja - o espírito guerreiro engloba tudo isto. E ficar de bem com a vida.

Abandonei o gnosticismo representado pela depressão para encontrar-me completamente lúcido, racional. O deprimido é um ser extremamente supersticioso, coloca mil besteiras na cabeça, de preferência aquelas capazes de o colocar para baixo, e acredita em todas elas. A cirurgia de visão pôs fim a este período obnibulado. O cético não tem que ser pessimista. Mudei radicalmente em algumas coisas. Antes eu ficaria arrasado se algo me magoasse; se um relacionamento fosse por água abaixo, a minha vida também, eram meses de choradeiras e melodramas. Agora penso que ficar magoado é coisa para 'franga'! O cara tem que ser forte, ser macho e acabou. Nào tenho medo de nada, é matar no osso do peito.

Sabe o que faço para não me estressar? Penso na vida ora como um guerreiro, ora como um pândego - daqueles que, não importa o que aconteça, mantém o bom humor, recorrendo ainda ao sarcasmo ou à ironia. Debates na internet, por exemplo: podem me ofender, magoar ou até mesmo xingar a minha mãe -- e se eu não for indiferente (adotei a política do "dane-se", do "whatever", do "foda-se"), na maioria das vezes irei até me divirtir. Testar e observar o comportamento alheio nestes casos é uma experiência realmente divertida -- quanto mais ignorante e intolerante o interlocutor, maior a diversão. Todavia, isso não quer dizer que eu não vá levar a sério um relacionamento, o emprego, a vida acadêmica, etc. Mas sem estresse!

Estar de bem com a vida. Como dizem onde trabalho: "hoje o dia foi massacrante mas tu te divertes, né?". É por aí.

"As grandes épocas de nossa vida são aquelas em que temos a coragem de batizar nosso lado mau de nosso lado melhor" Nietzsche, Além do Bem e do Mal (116, pg. 75)

segunda-feira, janeiro 03, 2005

John Rawls e a sua "Teoria da Justiça", conceitos básicos ou um pequeno glossário



A posição original
Situação hipotética segundo a qual as partes contratantes, representando pessoas racionais e morais, livres e iguais, escolhem, sob um "véu de ignorância", os princípios de justiça que devem governar a estrutura básica da sociedade. In somma, a versão revigorada de Rawls para a idéia de contratualismo.

O véu de ignorância
Condição capaz de assegurar que, na escolha dos princípios de justiça na "posição original", não serão levadas em consideração concepções particulares de bem, a posição social, os talentos e habilidades particulares das partes e de cada cidadão representado.

A sociedade bem-ordenada
Rawls confere a esta o ethos de uma sociedade como um sistema justo de cooperação entre pessoas livres e iguais. Uma sociedade bem-ordenada será aquela que, efetivamente, estiver bem regulada por uma concepção pública e política de justiça, na qual cada cidadão aceita, e sabe que todos os demais cidadãos também aceitam, os mesmos princípios de justiça, precípuos aos termos eqüitativos de uma cooperação social.

Razão pública
A razão compreendida entre os cidadãos de uma sociedade democrática liberal, na medida em que todos compartilham uma mesma concepção de justiça.

Igualitarismo liberal: igualdade do bem-estar social, mínimo de intervenção da esfera pública na privada, individualismo.

Democracia deliberativa
O bem individual deve ser escolhido de forma a considerar o interesse dos demais membros da sociedade, otimizando as possibilidades de concretização do fim racionalmente escolhido por cada um.

Os princípios de igualdade
Rawls considera dois princípios que, aplicados à estrutura básica da sociedade, são essenciais para garantir a distibuição de bens primários para todas as pessoas, independentemente de seus modelos de vida e de suas concepções de bem. O autor enfatiza bens primários como a autoestima e o auto-respeito, acompanhados de outras liberdades básicas, rendas e direitos à recursos sociais essenciais como educação e saúde.

A estrutura básica da sociedade desvela-se na forma com que instituições sociais, econômicas e políticas organizam-se sistemicamente para atribuirem direitos e deveres aos cidadãos.

a) princípio da igual liberdade
Todas as pessoas possuem igual direito a um projeto amplamente satisfatório de direitos e liberdades, projeto este compatível com todos os demais, dentre os quais a liberdade política, e apenas esta, deverá ter seu valor eqüitativo assegurado.

b) Como a todos são atribuídos os mesmos direitos e deveres, as desigualdades são justas. Entretanto, as desigualdades sociais e econômicas devem satisfazer a dois requisitos:
b.1) Princípio da fair equality of opportunities
Devem preservar o acesso de todos os cidadãos à cargos e posições, em igualdade eqüitativa de oportunidades.
b.2) Princípio da diferença
Devem representar o maior benefício possível aos membros menos privilegiados da sociedade (também chamado de princípio do "maximin", o menor dos piores resultados possíveis).

Ver Oliveira, Nythamar de; Rawls, Jorge Zahar (2003). Rawls, John; Uma Teoria da Justiça, Martins Fontes. Rawls, John; O Direito dos Povos, Martins Fontes.

(ok, ok. coloquei este post para poder 'guardar' e ler virtualmente o texto enquanto estudo a idéia central que irei utilizar em um artigo sobre "Ação afirmativa" ou "o direito do indivíduo a uma igual proteção").

sábado, janeiro 01, 2005

Feliz 2005!




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Books

  • CHESTERTON, G. K.. Ortodoxia
  • CLAUSEWITZ, Carl von. Der Krieg
  • COLERIDGE, S. T. Biographia Literaria
  • EVOLA, Julius. Men Among the Ruins
  • GUDERIAN, Generaloberst Heinz. Panzer Leader
  • GUÉNON, René. The Crisis of the Modern World
  • JUNGER, Ernst. Storm of Steel
  • SCHMITT, Carl. Der Begriff des Politischen
  • SWIFT, Jonathan. Panfletos Satíricos

Fave music:

Syd Barrett's Pink Floyd, Cream & Clapton, King Crimson, Univers Zero, Heldon, Faust, Magma, Mahavishnu Orchestra, Miles Davis, Astor Piazzola, Frank Zappa, Marty Friedman, Al Di Meola, Jefferson Airplane, Led Zeppelin, Funkadelic, Allman Brothers, Blue Cheer, Beatles, U2, Chrome, Velvet Underground, The Stooges, John Cage, Villa-Lobos, Beethoven, Bartók, Stravinsky, Bach... & Coltrane, Coltrane, Coltrane, C-O-L-T-R-A-N-E-!

E SLAYER, PORRA.

Pleonasmo


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O Autor

O homem só será capaz de atingir sua racionalidade plenamente quando for capaz de despir-se de tudo o que lhe deveria ser abstruso, principalmente os adereços da ignorância e do preconceito.

Plus au sujet de moi: Vous la saurez en temps voulu... Ou peut-être vous ne saurez jamais... Qui sait? Ah, arquétipos: tropismo por mulheres de óculos.


"O casaco de Arabela Tá com bosta na lapela É bom, mas está borrado. Veio o inverno, veio o frio, O casaco ainda serviu, Borrado não é rasgado." Bertolt Brecht


Humor: Les couleurs du chat peuvent changer.