Toda terça-feira, há 5 anos, o físico Luiz Alberto Oliveira vem falar de filosofia aqui. É muito útil. Ninguém quer ser intelectual, mas a gente fica com uma idéia do planeta, que está lá no fim da galáxia, longe de tudo. Isso dá a você uma idéia melhor da precariedade do ser humano, que é um fodido. Nasce, morre, como outro bicho qualquer, então por isso mesmo ele deve ser mais modesto, não pensar que é importante. O sujeito que pensa que é importante é para mim um débil mental. -Oscar Niemeyer

quinta-feira, agosto 19, 2004

Por que as Olímpiadas valem a pena?



Francesca Piccinini responde:


Não poderia deixar de demonstrar rompantes belicosos e vertiginosos diante da estonteante beleza desta ragazza! Não assisti a nenhum jogo até agora, mas ELA faz "The Olympics" valerem a pena. Só não gostaria de receber uma cortada! Como não sou de ferro, pausa para a verborragia: FORZA AZZURRA!! AVANTI, PITININA!!!! :p

ps: coloquei um post bobinho desses...?

terça-feira, agosto 17, 2004

Teoria do Fato Jurídico, comentários



    Um dos grandes problemas com que me deparei no livro Teoria do Fato Jurídico, cujo autor evitarei mencionar, é o de não tratar-se de um livro de um filósofo por excelência (ainda que com a pretensão da filosofia e o título em PhD.), de um jurista teórico, mas quiçá a estreita visão de alguém parecendo não dominar o suficiente a arte da dialética, da lógica, da teoria do conhecimento; perdido em meio a inúmeras imprecisões, reducionismos e falácias que passariam incólumes ao leitor comum, ou induziriam muito leitores ao erro. Sua exposição é cansativa e imprecisa. Escrevo sobre este livro por ser este adotado como modelo para o ensino de Teoria do Direito Civil em muitas faculdades, considerado até mesmo um clássico sobre o tema. O fato é que ninguém que eu conheço atura tal livro. Há centenas de milhares de livros na área do direito, no mais das vezes, livros ruins. Afinal, advogado é uma raça complicada, a mentalidade do "casuístico", a pretensão, o aparato aristocrático e esnobe; as gravatas, os ternos, a mania de querer tirar vantagem em tudo; a arte da sacanagem como ofício, todos estes elementos podem ser deveras irritantes, sublevando inúmeros preconceitos e estereótipos. A indisposição torna-se ainda maior quando percebemos que, para um livro que deveria custar no máximo 30 reais, temos que pagar exorbitantes R$ 59. Assim, de antemão, chegamos a este livro já com alguma má vontade; ainda em suas primeiras páginas, observamos a exposição de uma teoria ao mesmo tempo confusa e pouco didática. É preferível ter algumas pontes de safena lendo o bom Pontes de Miranda.

    "Há certos atos, porém, que, independentemente do querer das pessoas, trazem sempre e naturalmente um resultado físico, muitas vezes irremovíveis. Na caça, na pesca, a apreensão do animal ou do peixe é dado fático que não depende da vontade." (pg. 42)

    Ora, tal suposição é ridícula. Considera o autor que a apreensão do peixe ou animal seria puramente acidental? Perde ele o nexo intenção>ação>causação? A apreensão do animal é um dado atinente ao fato que não depende da vontade? Como fazê-lo, sem o elemento vontade? Confuso.

    Para justificar sua exposição, prossegue o autor:
"Um louco pode pescar, como uma criança pode apreender um animal".

    Tornar uma particularidade ou tomar um caso concreto como regra geral é insensatez. Deveria ele reconhecer a vontade como suporte da ação, e no mínimo, especificar sob qual regra este tipo de vontade estaria subsumida, para apenas então poder desconsiderá-la (a vontade). É muito fácil imaginar que a atitude do louco ou da criança tenha uma intencionalidade, uma vontade qualquer; por mais débil, sem sentido ou tola que seja. Mais correto seria, ao invés de dizer que para tal ato seu dado fático independe da vontade, dizer que tal é a manifestação de uma vontade sem a presença do elemento "agente capaz", cuja responsabilidade pelo ato é juridicamente desprezível. Assim, simples. Por mais que seja boa a intenção do autor, induz o leitor ao erro.

    Segue o autor: "Mas nem por isso deixa o louco, a criança ou o dono de um terreno de adquirir propriedade (efeito jurídico) sobre o peixe pescado, o animal caçado ou a árvore plantada."

    Uma consideração bastante razoável, mas não podem ser esquecidas as inúmeras leis ambientais que regulariam tais situações, em dadas circunstâncias. A manutenção em cativeiro privado de espécimes ameaçadas de extinção, por exemplo: ao louco que se apodere de um mico-leão-dourado, deve ser demovido o direito de propriedade.

    Bem, minha intenção com este post foi muito menos criticar ao livro do que divertir a alguns colegas. O livro não é tão mau assim. :)

sábado, agosto 14, 2004

Dadaísmo, a expressão aleatória do pensamento - a dialética do zero patafísico

Perhaps you will understand me better when I tell you that Dada is a virgin microbe that penetrates with the insistence of air into all the spaces that reason has not been able to fill with words or conventions. Tristan Tzara

To Make A Dadist Poem


Take a newspaper.
Take some scissors.
Choose from this paper an article the length you want to make your poem.
Cut out the article.
Next carefully cut out each of the words that make up this article and put them all in a bag.
Shake gently.
Next take out each cutting one after the other.
Copy conscientiously in the order in which they left the bag.
The poem will resemble you.
And there you are--an infinitely original author of charming sensibility, even though unappreciated by the vulgar herd.

Tristan Tzara

terça-feira, agosto 10, 2004

De como a religião não pode justificar o sacrifício de animais



    Nesta questão, parece-me que basta recorrermos ao Dilema de Êutifron, de Platão, para entendermos como a religião não pode justificar uma conduta como o sacrifício de animais. Meu objetivo aqui é desviar a discussão do embate puramente religioso, que seria um entrave ad eternum, subjetivo e estéril (de coloribus et gustibus non est disputandum, "de cores e gostos não se discute"). A meu juízo, devemos levar a questão para o panorama ético ao invés do religioso, que, como tema intrinsecamente subjetivo, não nos permitirá chegar a conclusão alguma.

Temos duas hipóteses, no que chama-se de disjunção exclusiva: ou algo tem a propriedade de ser sagrado arbitrariamente conferida pelo fato de ser aprovado pelos deuses; ou os deuses reconhecem neste algo a propriedade do sagrado de antemão, por isso sendo aprovado pelos deuses. Em nosso contexto, tal dilema pode ser reconstruído em: 1) ou o sacrifício de animais é bom porque é aprovado por deus; 2) ou o sacrifício de animais é bom independente-te da aprovação divina (aprovação esta que é póstuma, quando os deuses reconhecerem tal propriedade).

A partir deste discernimento, façamos as seguintes considerações:
- A primeira alternativa implica no sacrifício de animais como algo arbitrário, no chamado voluntarismo teológico ou teoria do comando divino. Tal arbitrariedade desvela-se em: "algum deus aprovaria a tortura, o roubo, o estupro? Ele o poderia muito bem ter feito assim, não o fez porque não quis". Não seria necessário nos estendermos neste raciocínio para vermos o quão absurda é tal proposição.
    Esclarecendo: a teoria do comando divino é completamente arbitrária, pois, segundo Peter Singer (Sobre a Ética), consideremos o seguinte caso: "se os deuses tivessem aprovado a tortura como algo bom e reprovado o auxílio ao próximo como algo mau". Se fordes tentar a saída de que deus não aprovaria condutas indignas porque ele (deus) é bom, e portanto dificilmente aprovaria a tortura, acabaria tal proposta morrendo na inexorável armadilha (falácia do regresso ao infinito): "deus é aprovado por deus?". Quem, ainda assim, insistir na teoria do voluntarismo teológico, correrá o perigoso risco de concluir que seu deus não passa de uma convenção.

- A segunda implica a rejeição de que o sacrifício de animais dependa direta ou essencialmente da religião. Ou seja, a religião não poderia, desta forma, justificar ou autorizar o sacrifício de animais como uma conduta aceitável. Conforme Singer: "Porque se algo é bom de antemão e é em virtude de ser bom que é objeto da vontade de deus, a justificação dos juízos morais deve prescindir da vontade de deus".

    Vejamos, então, como conclui-se que AMBAS as disjunções pelas quais poderíamos aceitar o sacrifício de animais, como conduta em nome da religião, DEVEM, NECESSARIAMENTE, SER REJEITADAS.

    O dilema de Êutifron é uma ferramenta muito útil para discernirmos como a ética não é algo inteligível somente no contexto da religião, propus uma singela adaptação à determinada realidade -- o sacrifício de animais sob a égide da religião. Se a religião não pode justificar o sacríficio de animais, muito menos o poderia o Governador, em defesa desta. Certo ou não, o deleite do exercício argumentativo é tal que não poupei-me aos mais tortuosos caminhos, sequer ao "cachorresco" uso do argumentum ad auditores, argumentum ad verecundiam, retortio argumenti, manipulação lógica, exposição exaustiva, entre outras sacanagens.

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Sobre a sanção de nosso "insígne" Governador, sou forçado a citar as palavras do jurista prof. Carlos Augusto Silva: "O Estado brasileiro - desde a Constituição de 1891 - é laico, não possuindo religião oficial. Decisões emanadas pelos órgãos estatais - Executivo, Legislativo ou Judiciário - devem estar imunes a ideologias religiosas."

Não obstante o absurdo que considero a sanção de tal proposta em pleno séc. XXI, trata-se, inequivocamente, de uma decisão populista e parcimoniosa. É o ônus de vivermos, federativamente, de cima a baixo, sob o jugo de Governos de ágrafos e apedeutas. Conforme costumo dizer: O respeito à natureza e aos animais é indispensável para que possamos afirmar nossa própria condição de dignidade humana. Nisso, a aprovação do sacrifício de animais significa um retrocesso bestial.

Abraços

(obs: coloquei "deus" em minúsculas, propositadamente, por tratar-se de figura ilustrativa, em sentido geral e abstrato)

sábado, agosto 07, 2004

Revirando a "Vida de Galileu", un pauvre essai lunatique sur l'oeuvre d' Bertolt Brecht



    Li há alguns meses (ou alguns meses atrás) a obra "Vida de Galileu" (1938/39), de Bertolt Brecht (Teatro Completo, Vol. VI). Quem já leu ou acompanha este malfadado blog (que nome abjeto!) deve saber sobre o que se trata esta obra. É sensacional, uma leitura agradável e inteligente; recomendo vivamente. Havia, entretanto, um parágrafo que muito me intrigava. Sim, porque todos os diálogos seguem um fluxo, possuem um nexo, um encadeamento, um panorama, uma coesão facilmente dedutível; mas determinado trecho apresentava-se deveras e particularmente emblemático. Quando Andrea praparava-se para atravessar a fonteira da Itália com destino à Alemanha levando consigo, clandestinamente, os famosos Discorsi de Galileu, há várias crianças que, ingenuamente, entoam alguns versos. Para o leitor desatento pareceria um cantarolar inofensivo, despretensioso. No momento imediato em que li, de fato não prestei muita atenção; mas ainda assim parecia haver alguma semiótica assaz curiosa, até algo de subliminar naquele parágrafo! Afinal, gênio é gênio, Brecht não a jogaria em meio ao texto sem um propósito.

    Cantam o seguinte:

"O casaco de Arabela
Tá com bosta na lapela
É bom, mas está borrado.
Veio o inverno, veio o frio,
O casaco ainda serviu,
Borrado não é rasgado"


    "O casaco de Arabela Tá com bosta na lapela". A lapela, parte do casaco que resguarda ao colo, ao pescoço, é por isso mesmo uma peça significativa do vestuário. Passei a associar com "honra"; com a honra e o nome de Galileu, que ao abjurar de suas idéias frente à ameaça da Inquisição, a maculava perante seus amigos e, principalmente, perante a ciência. "É bom, mas está borrado". Galileu sempre fora um homem reconhecido pela entusiástica e irredutível maneira como defendia seus princípios, suas idéias; mas neste momento, estava "borrado". Resignado, traíra seus próprios princípios.

    "Veio o inverno, veio o frio". Galileu sujeita-se à Inquisição, levando uma vida reclusa, discreta, resguardada, apagada. A figura do frio representaria a velhice e o ocaso do mestre. A partir de então, sua conduta e todos os seus escritos e publicações passariam pelo crivo da supervisão inquisicional.

    "O casaco ainda serviu, Borrado não é rasgado". Não obstante, Galileu, para surpresa mesmo de seus mais íntimos amigos, continuava, na obscuridade, quando o olhar da Inquisição não o seguia e quando o temor da tortura não o cegava, a escrever seus famosos Discorsi. Ao final do livro, no famoso reencontro com Andrea, profundamente desapontado com o mestre, há uma surpreendente revelação. "Terminei os Discorsi", diz Galileu. "Os Discorsi!", retruca Andrea. "Ponha embaixo do casaco". O velho Galileu, mesmo "borrado", desacreditado, seguira adiante com sua obra; mesmo subjugado pelos dogmas eclesiásticos, pela Inquisição, não deixara de ser um homem da ciência, um homem incessantemente em busca da razão. Caso acabasse em chamas na fogueira, teria sido derrotado. "Nova ciência, nova ética".

    Tal análise pode ser um diletantismo pífio e divagente, pode ser maluquice minha, mas não deixa de ser interessante, Afinal, é possível sintetizar de forma razoável a essência da obra nesta singela lullaby infantil! Espanta que eu perca tempo com estas elocubrações, mas hoje eu não tinha nada melhor para postar aqui... (rs) Permitam-me dizer, moléstia à parte, que não encontrareis análise similar em nenhum outro lugar da net.

beijos às moças, abraços aos demais!

Books

  • CHESTERTON, G. K.. Ortodoxia
  • CLAUSEWITZ, Carl von. Der Krieg
  • COLERIDGE, S. T. Biographia Literaria
  • EVOLA, Julius. Men Among the Ruins
  • GUDERIAN, Generaloberst Heinz. Panzer Leader
  • GUÉNON, René. The Crisis of the Modern World
  • JUNGER, Ernst. Storm of Steel
  • SCHMITT, Carl. Der Begriff des Politischen
  • SWIFT, Jonathan. Panfletos Satíricos

Fave music:

Syd Barrett's Pink Floyd, Cream & Clapton, King Crimson, Univers Zero, Heldon, Faust, Magma, Mahavishnu Orchestra, Miles Davis, Astor Piazzola, Frank Zappa, Marty Friedman, Al Di Meola, Jefferson Airplane, Led Zeppelin, Funkadelic, Allman Brothers, Blue Cheer, Beatles, U2, Chrome, Velvet Underground, The Stooges, John Cage, Villa-Lobos, Beethoven, Bartók, Stravinsky, Bach... & Coltrane, Coltrane, Coltrane, C-O-L-T-R-A-N-E-!

E SLAYER, PORRA.

Pleonasmo


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O Autor

O homem só será capaz de atingir sua racionalidade plenamente quando for capaz de despir-se de tudo o que lhe deveria ser abstruso, principalmente os adereços da ignorância e do preconceito.

Plus au sujet de moi: Vous la saurez en temps voulu... Ou peut-être vous ne saurez jamais... Qui sait? Ah, arquétipos: tropismo por mulheres de óculos.


"O casaco de Arabela Tá com bosta na lapela É bom, mas está borrado. Veio o inverno, veio o frio, O casaco ainda serviu, Borrado não é rasgado." Bertolt Brecht


Humor: Les couleurs du chat peuvent changer.