Toda terça-feira, há 5 anos, o físico Luiz Alberto Oliveira vem falar de filosofia aqui. É muito útil. Ninguém quer ser intelectual, mas a gente fica com uma idéia do planeta, que está lá no fim da galáxia, longe de tudo. Isso dá a você uma idéia melhor da precariedade do ser humano, que é um fodido. Nasce, morre, como outro bicho qualquer, então por isso mesmo ele deve ser mais modesto, não pensar que é importante. O sujeito que pensa que é importante é para mim um débil mental. -Oscar Niemeyer

segunda-feira, novembro 29, 2004

Férias da internet


Hi ho! Estou por aqui para tentar redimir minha ausência internética; nas últimas semanas ando deveras ocupado, tenho sido um bocado negligente com este espacinho virtual onde vertem todo tipo de estultícies e baboseiras que minha aparvalhada mente pode conceber. Bem, estou bastante atarefado com trabalho e estudos, com alguns artigos, resenhas atrasadas, ainda deveras "azulcrinado" assistindo meu tricolor amargando a entrada no inferno da segundona, e, ainda por cima, bebendo demaaaaaaaaaaaais... mas a culpa não é minha, a vida social também anda atribulada. Bem, ladies and gentleman, em breve, por volta de 10 de dezembro, prometo vir com alguma escrevinhação nova! Até lá, estarei em algum nosocômio recebendo sorinho de glicose ou em internação psiquiátrica, realizando tratamento para desintoxicação de consumo excessivo de álcool.

Abraços!

quinta-feira, outubro 21, 2004

Colisão de princípios, crise política na França - aporias e armadilhas da igualdade na Democracia



Pela primeira vez, escola francesa expulsa alunas por uso de véu
Reuters

MULHOUSE, França - Uma escola francesa expulsou nesta terça-feira duas alunas que usavam véus islâmicos. É a primeira vez que a polêmica lei que proíbe a exibição de símbolos religiosos em escolas públicas, em vigor desde setembro, gera expulsão.

As duas alunas da sétima série, de 12 e 13 anos, recusavam-se a tirar os véus desde a volta às aulas, no mês passado, apesar das várias reuniões dos professores com elas e com seus pais, segundo o diretor Michelle Feder-Cunin.

- O conselho disciplinar decidiu excluir definitivamente as duas alunas da escola - anunciou ele.

A França impôs a lei para reforçar o caráter laico da sua educação pública e para conter o radicalismo islâmico nas salas de aula. Crucifixos grandes e solidéus judaicos também foram proibidos. Jóias com alusões discretas a crenças continuam toleradas, para não violar as leis européias de direitos humanos.

Em Paris, o ministro da Educação, François Fillon, disse que cerca de 70 meninas em todo o país podem ser expulsas de suas escolas por insistirem em usar o véu. Três meninos da religião sikh em um subúrbio de Paris também estão contestando a lei, porque não querem deixar de usar turbante. Fillon disse que não haverá exceção.

- A lei vale para todos - declarou a autoridade.

As alunas expulsas da escola de Mulhouse podem agora se transferir para um colégio particular ou continuar sua educação usando cursos por correspondência.






    Pode-se dizer que, para caracterizarmos uma Democracia, precisamos considerar pelo menos três princípios fundamentais: tolerância, separação dos poderes (checks and balances, pressuposto que configura garantia fundamental para um Estado de Direito), e um princípio não tão facilmente dedutível que reza acerca de justiça, mais especificamente justiça social . Vou abordar apenas o primeiro deles. O princípio de tolerância obriga o Estado a garantir a liberdade de expressão de crenças políticas, culturais ou religiosas, desde que estas não perturbem a ordem pública. Implica dizer também que o Estado é laico, ou seja, trata de forma igualitária a todas as formas de religião, sem contudo identificar-se com qualquer uma delas. Pergunta: o uso de turbantes por parte de CIDADÃOS, no caso alunos da rede pública, interfere na laicidade do Estado? Que proiba-se a colocação de crucifixos ou quaisquer símbolos que identifiquem-se com uma ou outra religião nas salas de aula, ok: nada mais de crucifixos em cima da porta, em cima da lousa, whatever. Mas colocar tais imperativos a seus alunos? Não seria, antes disso, um caso de repressão de expressão cultural ou religiosa? Ainda, parece um típico caso no qual um suposto princípio de 'igualdade' (posto que trata aos 'desiguais' como 'iguais') fere a princípios de liberdade.

    O único motivo pelo qual poder-se-ia aceitar uma imposição inacreditavelmente ridícula como esta seria no caso de alegada 'perturbação da ordem pública'. Será que isto acontece? Será que o simples uso de turbantes, lenços ou burcas significa 'perturbação da ordem pública'? Não resido na França para saber, mas parece tolice acreditar nisso.

    O que diz La Constitution de la Ve République?
De la Souveiraneté - Les Piliers de la République:
Art. primer. - La France est une République indivisible, laïque, démocratique, sociale et décentralisée. Elle assure l'égalité devant la loi de tous les citoyans sans distinction d' origine, de race ou de religion. Elle respecte toutes les croyances.


    O artigo primeiro expõe os princípios que são a base do regime político francês e nos quais repousará a materialidade de todos os demais artigos da constituição. Neste garante-se a igualdade de direitos e reclama-se o princípio da não-discriminação entre os homens, que é considerado um dos fundamentos da República Francesa segundo a Assembléia de 1789 que redigiu a famosa Déclaration des Droits de l'Homme et du Citoyen.

    É paradoxal. Se sob a luz do que l'esprit des temps, que ao intróito do século XIX e segundo Alexis de Tocqueville determinava uma inevitável marcha para a Democracia, hoje, ao alvor do séc. XXI, percebemos o mesmo espírito inexoravelmente 'embananado' em questões democráticas veramente basilares.

Saudações!

sábado, setembro 11, 2004

11 de setembro:

2792 civis mortos nos EUA. 2004: até o momento, pelo menos 11000 civis mortos pela intervenção militar dos EUA no Iraque. Ambos os números nefastos e injustificáveis.

http://www.iraqbodycount.net/













Esta é a face da Pax Americana. A carnificina belial promovida pelo escalfúrnio neoliberal, o MOLOCH norte-americano, parece não ter fim.

sexta-feira, setembro 03, 2004

Fulgurações luminares distantes e reverberações oníricas-transfinitas acerca de (...)



    Alvissaras!!! Recebi uma crítica sobre minha análise de "Vida de Galileu". Costumo dizer que receber elogios de pessoas elogiáveis reveste a este de inefável figura de autoridade, logo mais gabola ainda eu fiquei! Não saberia como agradecer por palavras tão generosas. É curioso receber um elogio como este, mesmo após ter cometido um deslize crasso no uso dos "porquês", no post "Piccinini" (já corrigido). Bem, eis a mensagem: ;)

"Mais uma vez me vejo vencida por seu tão absoluto domínio da língua pátria. Estou zonza e isto não se dá pelo sono acumulado de três dias ou pelo uso intermitente ou ocasional de drogas psicotrópicas, das quais tenho tão pouco conhecimento e contato tão distante que minhas confusões já geraram apelidos que vão de constrangedores a engraçados. Verborragia é pouco pra definir o que se passa no teu blog!

Brecht lido e interpretado daquele jeito, chega a gerar ciumeira entre meus amigos e certa inveja em mim. Confesso que sou daqueles que se deixam abosorver tão absolutamente por uma leitura, boa ou má - imersa em contrariedade para com aquele que me fez cair nas mãos um péssimo livro, ou fantasiando as maravilhas de um tempo em que se fez possível a criação de muito boas obras - , que ao fim de um livro apenas sou capaz de me deixar envolver pelo prazer de um tempo bem gasto e sorrir sozinha e silenciosa à beira de uma porta para o passado que apenas acabei de abrir.
Jamais sem seus bons olhos sobre um trecho tão deliciosamente despretencioso - a meus olhos encantados - teria sido eu capaz de enxergar tal resumo de uma situação política e social, profunda definidora de uma era de nossa História.
Parabéns pelo blog."



"Sobre leituras e livros": ler ou não ler



"(...) O que acontece na literatura não é diferente do que acontece na vida: para onde quer que nos dirijamos, imediatamente encontramos a incorrigível plebe da humanidade, que existe em toda parte como uma legião, que ocupa tudo e suja tudo, como moscas no verão. Daí a imensidão de livros ruins, essa erva daninha da literatura que se alastra, que retira a nutrição do trigo e o sufoca. Assim, eles usurpam o tempo, o dinheiro e a atenção do público a que, por lei, pertencem os bons livros e seus nobres objetivos, enquanto os livros ruins foram escritos com a única finalidade de gerar dinheiro ou propiciar emprego. Não são, portanto, apenas inúteis, mas positivamente daninhos. Nove décimos de toda nossa literatura atual não tem outra finalidade a não ser tirar alguns centavos do bolso do público: com este objetivo conspiram decididamente o autor, o editor e o crítico.

É um golpe baixo e mal intencionado, mas lucrativo, que os literatos, os autores que escrevem para ganhar o pão e os polígrafos, conseguiram dar contra o bom gosto e a verdadeira educação do século, levando o mundo elegante pela coleira, adestrando-o para ler a tempo, ou seja todos, sempre a mesma coisa, ou seja, o mais recente, para ter em seus círculos sobre o que conversar: para cumprir este objetivo servem os romances ruins e outras produções do tipo de penas outrora famosas como as de Spindler, Bulwer, Eugène Sue, e outros. O que pode ser mais miserável do que o destino de tal público literário que se acha obrigado a ler, a todo momento, as últimas publicações de cabeças absolutamente ordinárias, que escrevem apenas por dinheiro e que, por esta razão, existem sempre em grande número e conhecem apenas de nome as obras dos raros e superiores espíritos de todos os tempos e de todos os países! — Os jornais de literatura diários são, em especial, um meio habilmente inventado para roubar do público estético o tempo que este deveria dedicar às verdadeiras produções adequadas à sua formação e fazer com que este dedique seu tempo às improvisações cotidianas de cabeças ordinárias.

Como as pessoas lêem sempre, em vez do melhor de todos os tempos, o mais recente, os autores permanecem na esfera estreita das idéias circulantes, e o século se enterra cada vez mais profundamente nos seus próprios excrementos.

É por isso que, no que se refere a nossas leituras, a arte de não ler é sumamente importante. Esta arte consiste em nem sequer folhear o que ocupa o grande público, o tempo todo, como panfletos políticos ou literários, romances, poemas, etc., que fazem tanto barulho durante algum tempo, atingindo mesmo várias edições no seu primeiro e último ano de vida: deve-se pensar, ao contrário, que quem escreve para palhaços sempre encontra um grande público e consagre-se o tempo sempre muito reduzido de leitura unicamente às obras dos grandes espíritos de todos os tempos e de todos os países, que se destacam do resto da humanidade e que a voz da fama identifica. Só eles educam e ensinam realmente.

Os ruins nunca lemos de menos e os bons nunca relemos demais. Os livros ruins são veneno intelectual: eles estragam o espírito.
Para ler o bom uma condição é não ler o ruim: porque a vida é curta e o tempo e a energia escassos."

SCHOPENHAUER, Arthur. In Über Lesen und Bücher. Parerga und Paralipomena (1851). Ed. Paraula (1993)
_________________________



    Schopenhauer acusava a filosofia de Hegel de palavrório vazio, charlatanice e falastrionismo; a rivalidade entre os dois é notória. Entretanto, observamos que Hegel tem importância decisiva para Karl Marx, Alexandre Kojève (recordo sua célebre "releitura" de Fenomenologia do Espírito), Antonio Gramsci (o 'marketing' gramsciano veio a cobrir uma das grandes lacunas da teoria marxista), entre outros. Bem, não é difícil entender que, em sua época, Schopenhauer e Hegel não poderiam ser considerados leituras "clássicas". Entretanto, a partir destas observações, podemos refinar as palavras de Schopenhauer com pelo menos duas formas que a invalidam: a) quando a crítica literária dá-se a um oponente de, notadamente, nível similar de intelecto - mais um exemplo seria a rivalidade entre Voltaire e Rousseau. b) quando determinada literatura é reconhecida por outras mentes de notável discernimento.

    Mas proponho fazermos uma leitura atual das palavras de Schopenhauer, escritas há mais de 150 anos; pois mesmo à luz passional do filósofo do pessimismo a importância da filosofia hegeliana não pode ser descartada, bem como não é meu interesse fazer do plano da vida pessoal de Schopenhauer um exemplo. Minha crítica tem por destino ao falastrionismo da auto-ajuda, do esoterismo, das literaturas de X-burguer, dos livros apelativos, dos tablóides, do ínvio "marketeirismo" (*); os verdugos da imbecilização coletiva. Para que exerçamos um espírito crítico sobre tudo aquilo que chega aos nossos olhos. Deveria eu ter mudado o titulo do tópico para "por que não ler Paulo Coelho", ou lembrar outros inomináveis não menos estróinos que costumam freqüentar o "top 10" das livrarias. Temos que aturar a maldição nefanda que recai sobre nossas cabeças através dos opróbrios baluartes da literatura acéfala. Louva-se o espírito de um Millor Fernandes, um Arnaldo Jabor (posso não concordar com o que ele diz, mas a maneira como ele manipula seu sarcasmo sempre me surpreende) ou um L.F. Veríssimo, exceções que prostituem suas palavras com muito denodo e sagacidade.

"O Ministério da Literatura e Saúde adverte: LER PAULO COELHO PODE CAUSAR RETARDAMENTO MENTAL."


(*) Não podemos deixar de fazer menção à inacreditável onda de oportunismo gerada em torno do sucesso de vendas de "O Código da Vinci" (que já não é grande coisa):

quinta-feira, setembro 02, 2004

Execução de "nepalenses" por milícias "iraquianas"



"Dubai - A Web site linked to an Iraqi militant group showed a video of what was purported to be the killing of 12 Nepalese workers by militants who had kidnapped them...The video showed a masked man in desert camouflage apparently slitting the throat of a blindfolded man lying on the ground. The blindfolded man moans and a shrill wheeze is heard, then the masked man displays the head to the camera before resting it on the decapitated body. Other footage showed an armed man firing single shots from an assault rifle at the back of the heads of 11 others. A statement on the website vowed to keep fighting the Americans in Iraq."

Assisti ao vídeo ontem à noite. Após uma busca por palavras-chave, encontrei em um site obscuro e esdrúxulo. Se é uma farsa ou não e quais são as milícias envolvidas, impossível afirmar, a guerra de informações é tão maior do que a guerra belicosa. Nestes casos, a dúvida é um imperativo. O que posso afirmar é que trata-se, provavelmente, da ação mais estarrecedora à qual já tive oportunidade de ver em toda a minha vida. Sào 4'15" de ignominiosas execuções, atos de inacreditável violência, extrema covardia e desumanidade. Degradante. Sou um curioso por natureza, pensei que teria sangue-frio para assistir ao tal vídeo, mas confesso que superestimei meu julgamento; até o presente momento as imagens ainda me perturbam.

Quem acompanha o andar dos acontecimentos percebe que está sendo revolvido um clima de Terceira Guerra Mundial, só não vê quem não quer. Resta esperar que não passe de um susto, que a humanidade acorde deste pesadelo; que a humanidade tenha misericórdia de si mesma. Essa insanidade precisa parar, bem como a besta neoliberal precisa parar de solapar a dignidade e soberania destes povos.

A quem desejar, entre em contato que eu repasso o link. Aviso: menores de 18 anos, pessoas sensíveis, cardíacas, não é recomendado assistir. Vou além: não vale a pena. Proporcionou-me refletir sobre muita coisa, mas eu me arrependi de ter visto.

A quem chamamos terroristas?



    Há cerca de alguns posts, usei de um recurso ficcional para aduzir que, ao contrário de uma manifestação retrógrada, de povos atrasados ou "medievos", a Jihad islâmica de nossos tempos seria um subproduto moderno do neoliberalismo, da globalização, da exploração bélico-imperialista norte-americana e européia, uma resposta às mendazes pretensões da chamada Pax americana. Retomo o tema, mas desta feita atendo-me ao historicismo, para efetuar uma mudança de enfoque sobre aqueles que vêm apresentando-se com lábaros de terrorismo no transcurso da história. O terrorismo não está de um lado apenas.

    Antes de mais nada, precisamos ter uma definição clara e concisa do que é terrorismo.
Terrorismo: modo de coagir, combater ou ameaçar pelo uso sistemático do terror. (Dicionário Aurélio).
Terror: horror, pavor, medo, pânico. (Melhoramentos, dicionário de sinônimos).

    Agora vejamos o que o Congresso norte-americano tem a dizer sobre o terrorismo:
"Um ato de terrorismo quer dizer qualquer atividade que: a) envolva um ato violento ou uma séria ameaça à vida humana que seja considerado delito pelos Estados Unidos ou por qualquer outro Estado; ou que seja delito assim reconhecido, se praticado dentro do território jurisdicional norte-americano ou de qualquer outro Estado; b) (i) aparente ser uma intimidação ou coerção à população civil; (ii) influencie a política governamental por meio de intimidação ou coerção; (iii) ou ameace a conduta de um governo por assassinato ou seqüestro". (United States Code Congressional and Administrative News).

    Observando principalmente o que diz o ítem "b", convido-vos a refletir: o que têm feito países da Europa, notadamente potências da Europa Ocidental nestes últimos 500 anos? O que tem feito os Estados Unidos da América desde fins do século XIX, quando apoderou-se de Cuba, Porto Rico, Filipinas, grande parte do México, ou principalmente uma nefanda invasão como o foi, não há muito tempo, na Nicarágua? O que dizer de quem, muito antes, dizimou suas próprias populações autóctones, os índios? O que faz quando apóia ditaduras, assassinatos políticos, dissemina e financia guerrilhas e partisans na África, Ásia e América Central? O que faz quando impõe ao governo paquistanês que cesse a cedência de recursos para subsistência da população civil afegã -- que culpa nenhuma tinha pelo regime Talibã --, promovendo a morte de um número incalculável de civis afegãos por doenças e inanição? Tudo isso sem que precisemos nos lembrar dos horrores no Vietnã. Pior ainda é constatar que a invervenção "humanitarista" dos EUA, quando ocorre nos países em crise, dá-se quando este possui vastas e generosas bacias de petróleo.

    Não será possível dizer que os EUA se autoproclamam uma nação terrorista? Não será possível dizer que esta nação, da qual sou filho, tem promovido a intimidação e coerção à população civil em inúmeros países do Terceiro mundo; influenciado a política governamental por meio de intimidação ou coerção, como são os embargos econômicos e políticos; ou ainda ameaçado a conduta de governos através de assassinatos ou seqüestros, como insurgem as ações da CIA e suas milícias? Que monstros esse terrorismo tem gerado!!

"Há algo de podre no reino da Dinamarca".


(continua...)

quinta-feira, agosto 19, 2004

Por que as Olímpiadas valem a pena?



Francesca Piccinini responde:


Não poderia deixar de demonstrar rompantes belicosos e vertiginosos diante da estonteante beleza desta ragazza! Não assisti a nenhum jogo até agora, mas ELA faz "The Olympics" valerem a pena. Só não gostaria de receber uma cortada! Como não sou de ferro, pausa para a verborragia: FORZA AZZURRA!! AVANTI, PITININA!!!! :p

ps: coloquei um post bobinho desses...?

terça-feira, agosto 17, 2004

Teoria do Fato Jurídico, comentários



    Um dos grandes problemas com que me deparei no livro Teoria do Fato Jurídico, cujo autor evitarei mencionar, é o de não tratar-se de um livro de um filósofo por excelência (ainda que com a pretensão da filosofia e o título em PhD.), de um jurista teórico, mas quiçá a estreita visão de alguém parecendo não dominar o suficiente a arte da dialética, da lógica, da teoria do conhecimento; perdido em meio a inúmeras imprecisões, reducionismos e falácias que passariam incólumes ao leitor comum, ou induziriam muito leitores ao erro. Sua exposição é cansativa e imprecisa. Escrevo sobre este livro por ser este adotado como modelo para o ensino de Teoria do Direito Civil em muitas faculdades, considerado até mesmo um clássico sobre o tema. O fato é que ninguém que eu conheço atura tal livro. Há centenas de milhares de livros na área do direito, no mais das vezes, livros ruins. Afinal, advogado é uma raça complicada, a mentalidade do "casuístico", a pretensão, o aparato aristocrático e esnobe; as gravatas, os ternos, a mania de querer tirar vantagem em tudo; a arte da sacanagem como ofício, todos estes elementos podem ser deveras irritantes, sublevando inúmeros preconceitos e estereótipos. A indisposição torna-se ainda maior quando percebemos que, para um livro que deveria custar no máximo 30 reais, temos que pagar exorbitantes R$ 59. Assim, de antemão, chegamos a este livro já com alguma má vontade; ainda em suas primeiras páginas, observamos a exposição de uma teoria ao mesmo tempo confusa e pouco didática. É preferível ter algumas pontes de safena lendo o bom Pontes de Miranda.

    "Há certos atos, porém, que, independentemente do querer das pessoas, trazem sempre e naturalmente um resultado físico, muitas vezes irremovíveis. Na caça, na pesca, a apreensão do animal ou do peixe é dado fático que não depende da vontade." (pg. 42)

    Ora, tal suposição é ridícula. Considera o autor que a apreensão do peixe ou animal seria puramente acidental? Perde ele o nexo intenção>ação>causação? A apreensão do animal é um dado atinente ao fato que não depende da vontade? Como fazê-lo, sem o elemento vontade? Confuso.

    Para justificar sua exposição, prossegue o autor:
"Um louco pode pescar, como uma criança pode apreender um animal".

    Tornar uma particularidade ou tomar um caso concreto como regra geral é insensatez. Deveria ele reconhecer a vontade como suporte da ação, e no mínimo, especificar sob qual regra este tipo de vontade estaria subsumida, para apenas então poder desconsiderá-la (a vontade). É muito fácil imaginar que a atitude do louco ou da criança tenha uma intencionalidade, uma vontade qualquer; por mais débil, sem sentido ou tola que seja. Mais correto seria, ao invés de dizer que para tal ato seu dado fático independe da vontade, dizer que tal é a manifestação de uma vontade sem a presença do elemento "agente capaz", cuja responsabilidade pelo ato é juridicamente desprezível. Assim, simples. Por mais que seja boa a intenção do autor, induz o leitor ao erro.

    Segue o autor: "Mas nem por isso deixa o louco, a criança ou o dono de um terreno de adquirir propriedade (efeito jurídico) sobre o peixe pescado, o animal caçado ou a árvore plantada."

    Uma consideração bastante razoável, mas não podem ser esquecidas as inúmeras leis ambientais que regulariam tais situações, em dadas circunstâncias. A manutenção em cativeiro privado de espécimes ameaçadas de extinção, por exemplo: ao louco que se apodere de um mico-leão-dourado, deve ser demovido o direito de propriedade.

    Bem, minha intenção com este post foi muito menos criticar ao livro do que divertir a alguns colegas. O livro não é tão mau assim. :)

sábado, agosto 14, 2004

Dadaísmo, a expressão aleatória do pensamento - a dialética do zero patafísico

Perhaps you will understand me better when I tell you that Dada is a virgin microbe that penetrates with the insistence of air into all the spaces that reason has not been able to fill with words or conventions. Tristan Tzara

To Make A Dadist Poem


Take a newspaper.
Take some scissors.
Choose from this paper an article the length you want to make your poem.
Cut out the article.
Next carefully cut out each of the words that make up this article and put them all in a bag.
Shake gently.
Next take out each cutting one after the other.
Copy conscientiously in the order in which they left the bag.
The poem will resemble you.
And there you are--an infinitely original author of charming sensibility, even though unappreciated by the vulgar herd.

Tristan Tzara

terça-feira, agosto 10, 2004

De como a religião não pode justificar o sacrifício de animais



    Nesta questão, parece-me que basta recorrermos ao Dilema de Êutifron, de Platão, para entendermos como a religião não pode justificar uma conduta como o sacrifício de animais. Meu objetivo aqui é desviar a discussão do embate puramente religioso, que seria um entrave ad eternum, subjetivo e estéril (de coloribus et gustibus non est disputandum, "de cores e gostos não se discute"). A meu juízo, devemos levar a questão para o panorama ético ao invés do religioso, que, como tema intrinsecamente subjetivo, não nos permitirá chegar a conclusão alguma.

Temos duas hipóteses, no que chama-se de disjunção exclusiva: ou algo tem a propriedade de ser sagrado arbitrariamente conferida pelo fato de ser aprovado pelos deuses; ou os deuses reconhecem neste algo a propriedade do sagrado de antemão, por isso sendo aprovado pelos deuses. Em nosso contexto, tal dilema pode ser reconstruído em: 1) ou o sacrifício de animais é bom porque é aprovado por deus; 2) ou o sacrifício de animais é bom independente-te da aprovação divina (aprovação esta que é póstuma, quando os deuses reconhecerem tal propriedade).

A partir deste discernimento, façamos as seguintes considerações:
- A primeira alternativa implica no sacrifício de animais como algo arbitrário, no chamado voluntarismo teológico ou teoria do comando divino. Tal arbitrariedade desvela-se em: "algum deus aprovaria a tortura, o roubo, o estupro? Ele o poderia muito bem ter feito assim, não o fez porque não quis". Não seria necessário nos estendermos neste raciocínio para vermos o quão absurda é tal proposição.
    Esclarecendo: a teoria do comando divino é completamente arbitrária, pois, segundo Peter Singer (Sobre a Ética), consideremos o seguinte caso: "se os deuses tivessem aprovado a tortura como algo bom e reprovado o auxílio ao próximo como algo mau". Se fordes tentar a saída de que deus não aprovaria condutas indignas porque ele (deus) é bom, e portanto dificilmente aprovaria a tortura, acabaria tal proposta morrendo na inexorável armadilha (falácia do regresso ao infinito): "deus é aprovado por deus?". Quem, ainda assim, insistir na teoria do voluntarismo teológico, correrá o perigoso risco de concluir que seu deus não passa de uma convenção.

- A segunda implica a rejeição de que o sacrifício de animais dependa direta ou essencialmente da religião. Ou seja, a religião não poderia, desta forma, justificar ou autorizar o sacrifício de animais como uma conduta aceitável. Conforme Singer: "Porque se algo é bom de antemão e é em virtude de ser bom que é objeto da vontade de deus, a justificação dos juízos morais deve prescindir da vontade de deus".

    Vejamos, então, como conclui-se que AMBAS as disjunções pelas quais poderíamos aceitar o sacrifício de animais, como conduta em nome da religião, DEVEM, NECESSARIAMENTE, SER REJEITADAS.

    O dilema de Êutifron é uma ferramenta muito útil para discernirmos como a ética não é algo inteligível somente no contexto da religião, propus uma singela adaptação à determinada realidade -- o sacrifício de animais sob a égide da religião. Se a religião não pode justificar o sacríficio de animais, muito menos o poderia o Governador, em defesa desta. Certo ou não, o deleite do exercício argumentativo é tal que não poupei-me aos mais tortuosos caminhos, sequer ao "cachorresco" uso do argumentum ad auditores, argumentum ad verecundiam, retortio argumenti, manipulação lógica, exposição exaustiva, entre outras sacanagens.

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Sobre a sanção de nosso "insígne" Governador, sou forçado a citar as palavras do jurista prof. Carlos Augusto Silva: "O Estado brasileiro - desde a Constituição de 1891 - é laico, não possuindo religião oficial. Decisões emanadas pelos órgãos estatais - Executivo, Legislativo ou Judiciário - devem estar imunes a ideologias religiosas."

Não obstante o absurdo que considero a sanção de tal proposta em pleno séc. XXI, trata-se, inequivocamente, de uma decisão populista e parcimoniosa. É o ônus de vivermos, federativamente, de cima a baixo, sob o jugo de Governos de ágrafos e apedeutas. Conforme costumo dizer: O respeito à natureza e aos animais é indispensável para que possamos afirmar nossa própria condição de dignidade humana. Nisso, a aprovação do sacrifício de animais significa um retrocesso bestial.

Abraços

(obs: coloquei "deus" em minúsculas, propositadamente, por tratar-se de figura ilustrativa, em sentido geral e abstrato)

sábado, agosto 07, 2004

Revirando a "Vida de Galileu", un pauvre essai lunatique sur l'oeuvre d' Bertolt Brecht



    Li há alguns meses (ou alguns meses atrás) a obra "Vida de Galileu" (1938/39), de Bertolt Brecht (Teatro Completo, Vol. VI). Quem já leu ou acompanha este malfadado blog (que nome abjeto!) deve saber sobre o que se trata esta obra. É sensacional, uma leitura agradável e inteligente; recomendo vivamente. Havia, entretanto, um parágrafo que muito me intrigava. Sim, porque todos os diálogos seguem um fluxo, possuem um nexo, um encadeamento, um panorama, uma coesão facilmente dedutível; mas determinado trecho apresentava-se deveras e particularmente emblemático. Quando Andrea praparava-se para atravessar a fonteira da Itália com destino à Alemanha levando consigo, clandestinamente, os famosos Discorsi de Galileu, há várias crianças que, ingenuamente, entoam alguns versos. Para o leitor desatento pareceria um cantarolar inofensivo, despretensioso. No momento imediato em que li, de fato não prestei muita atenção; mas ainda assim parecia haver alguma semiótica assaz curiosa, até algo de subliminar naquele parágrafo! Afinal, gênio é gênio, Brecht não a jogaria em meio ao texto sem um propósito.

    Cantam o seguinte:

"O casaco de Arabela
Tá com bosta na lapela
É bom, mas está borrado.
Veio o inverno, veio o frio,
O casaco ainda serviu,
Borrado não é rasgado"


    "O casaco de Arabela Tá com bosta na lapela". A lapela, parte do casaco que resguarda ao colo, ao pescoço, é por isso mesmo uma peça significativa do vestuário. Passei a associar com "honra"; com a honra e o nome de Galileu, que ao abjurar de suas idéias frente à ameaça da Inquisição, a maculava perante seus amigos e, principalmente, perante a ciência. "É bom, mas está borrado". Galileu sempre fora um homem reconhecido pela entusiástica e irredutível maneira como defendia seus princípios, suas idéias; mas neste momento, estava "borrado". Resignado, traíra seus próprios princípios.

    "Veio o inverno, veio o frio". Galileu sujeita-se à Inquisição, levando uma vida reclusa, discreta, resguardada, apagada. A figura do frio representaria a velhice e o ocaso do mestre. A partir de então, sua conduta e todos os seus escritos e publicações passariam pelo crivo da supervisão inquisicional.

    "O casaco ainda serviu, Borrado não é rasgado". Não obstante, Galileu, para surpresa mesmo de seus mais íntimos amigos, continuava, na obscuridade, quando o olhar da Inquisição não o seguia e quando o temor da tortura não o cegava, a escrever seus famosos Discorsi. Ao final do livro, no famoso reencontro com Andrea, profundamente desapontado com o mestre, há uma surpreendente revelação. "Terminei os Discorsi", diz Galileu. "Os Discorsi!", retruca Andrea. "Ponha embaixo do casaco". O velho Galileu, mesmo "borrado", desacreditado, seguira adiante com sua obra; mesmo subjugado pelos dogmas eclesiásticos, pela Inquisição, não deixara de ser um homem da ciência, um homem incessantemente em busca da razão. Caso acabasse em chamas na fogueira, teria sido derrotado. "Nova ciência, nova ética".

    Tal análise pode ser um diletantismo pífio e divagente, pode ser maluquice minha, mas não deixa de ser interessante, Afinal, é possível sintetizar de forma razoável a essência da obra nesta singela lullaby infantil! Espanta que eu perca tempo com estas elocubrações, mas hoje eu não tinha nada melhor para postar aqui... (rs) Permitam-me dizer, moléstia à parte, que não encontrareis análise similar em nenhum outro lugar da net.

beijos às moças, abraços aos demais!

sexta-feira, julho 30, 2004

Sobre a importância da visão



    Todos os homens, por natureza, desejam conhecer. Sinal disso é o prazer que nos proporcionam os nossos sentidos; pois, ainda que não levemos em conta a sua utilidade, são estimados por si mesmos; e, acima de todos os outros, o sentido da visão. Com efeito, não só com o intento de agir, mas até quando não nos propomos fazer nada, pode-se dizer que preferimos ver a tudo o mais. O motivo disto é que, entre todos os sentidos, é a visão que põe em evidência e nos leva a conhecer maior número de diferenças entre as coisas. Aristóteles, Metafísica (Livro A).

Camilo Castelo Branco, lisboeta nascido em 1825, foi um dos maiores escritores da língua portuguesa e da literatura mundial no século XIX. Detentor de uma retórica de invejável riqueza de vocabulário, requinte e elegância, fazia uso da língua portuguesa como poucos, podendo ser considerado influência de tantos caudatários para nossa literatura quanto poder-se-ia dizer de Balzac para a francesa -- de tal modo que muitas de suas palavras inspiram e ilustram, com citações, ao dicionário Aurélio.


Entre suas obras, destacam-se Amor de Perdição (1862), Cabeça, Coração e Estômago (1862), Amor de Salvação (1864) e A Brasileira de Prazins (1882).

Em dois momentos, escreve ele: "Foi muito grave o prognóstico da minha doença de olhos; mas hoje está averiguado que é efeito de venéreo inveterado. Sofro há 4 meses uma diplopia. É horrível para quem não tem outra distracção além da leitura. Tarde será o meu restabelecimento; mas, valham-me as esperanças de não cegar, porque isto importava um inevitável suicídio." "Eu bem queria poupar-me ao suicídio; mas desde os 18 anos que pressenti a necessidade dessa evasiva, sem me lembrar que a cegueira seria o impulsor justificadíssimo da catástrofe."

Época em que muitas doenças do corpo e d'alma, hoje consideradas triviais, eram incuráveis (claro deve ficar que o suicídio do escritor remete à uma série de outras perturbações); Camilo suicidou-se com um tiro, em junho de 1890, em Vila Nova de Famalicão.

segunda-feira, julho 26, 2004

Nananananana!! Não adianta discutir, não existe coisa mais linda do que o meu doggy! Tava com saudades do grudismo, "a coisa mais linda do planeta dos cachorros-crianças". Eu costumava chamá-lo de "cachorro cara de bolo", "cachorro-bolo", "cachorrinho bolinho", "orinho bolinho", foi diminuindo até que surgiu o interessante mimick de "oroboro". Here he is!

sexta-feira, julho 16, 2004

Negó seguin: no weekend tô indo pra bh fazer a cirurgia no olhinho esquerdo, que será no dia 19! Ficarei ausente até o final de julho!

Sobre a estupidez e a injustiça



    Frank Zappa, um dos mais eminentes gênios criativos da música no século XX, afirmava: "Existe mais estupidez do que hidrogênio. Estupidez é o elemento básico do universo". Pois que causa-me tal indignação e até mesmo furor a ignorância e o preconceito de certas partes, a estupidez -- não que eu me isente de eventualmente incorrer em tais malgrados, digo que estes são intrínsecos à nossa própria existência, posto que a ignorância e o preconceito, de certa forma, são próprias da incompleitude das almas --, que não possa isentar-me de criticar e abrir os olhos dos que fazem destas um "moto perpétuo".

    Mas afinal, o que é a ignorância, senão o desconhecimento absoluto, o conhecimento parcial (ou o não conhecimento da totalidade) de uma determinada natureza, e o preconceito, como a pretensão de crer-se detentor do conhecimento de tais prerrogativas? E como garantir-se ser detentor do conhecimento, da realidade natural ou essência de algo a nós abstruso, se pouco conhecemos de nós mesmos? Pois bem, o pior tipo de preconceito e ignorância é o daqueles que julgam a outrem, enquanto ignaros de si mesmos. Sem a razão estabelecida na autocrítica, temos os falaciosos, prepotentes, injustos, iníquos, falastrões da inequanimidade. Pois, dizia Sócrates, "conhece-te a ti mesmo". Aquele que conhece a si mesmo, sua própria natureza, alma, humanidade, como se prefira chamar, dificilmente deixa de reconhecer uma injustiça; e através da ponderação, da prudência (phronesis), do discernimento, a combate ou evita. Portanto, considero a injustiça, neste sentido de juízo de valor, como o mais vil fruto do preconceito e da ignorância. Podemos considerar que aquele que desconhece a si próprio estende sua ignorância ao juízo sobre todos os seus semelhantes; logo ou ele comete injustiça por ser vil por natureza (o que não parece razoável defender), ou por ignorância. (Não consideramos ocorrências acidentais ou involuntárias). Como podemos imaginar que a viliedade é outra forma de ignorância -- pois o mal, como conduta que cometemos a outrem, autoriza o mal que este se nos pode cometer, logo é o mal que cometemos a nós mesmos --, a ignorância é a fonte mais imediata de toda a injustiça. Neste sentido, há injustiça que não esteja fundamentada na ignorância? Parece-me que não.

A falácia da Democracia



    Acerca do texto sobre Camus e Kafka: Não, eu não estava sob efeito de quaisquer bebidas alcoólicas, em níveis acima de 6 decilitros de álcool por litro de sangue, nem de quaisquer substâncias capazes de criarem dependência psíquica ou física, quando de meu post anterior! Admito que exagerei ao impingir características maquiavélicas e teratomorfas ao Estado Social Contemporâneo, não era esta a minha intenção, bem sabemos que é uma criação de tempos modernos, e como tal, tem suas vantagens e desvantagens. Claro está que era tão somente um rascunho de idéias, ainda não pronto para sua publicação.

Também faz-se necessário esclarecer que a aplicação e definição de cada um dos conceitos encadeados requer mais clareza, provavelmente fosse necessário detalhar cada um deles e precisar, com exemplos, onde encontram-se estes nas obras de Camus e Kafka. Mas não é esse meu objetivo, não creio ser necessário perder tempo com isso. Bem precisamos, ainda, esclarecer que os autores não necessariamente teriam a mesma noção que é dada aqui a cada um dos conceitos que elaboramos, pertinentes ao contexto. Ainda, parece lógico imaginar que os autores sequer tivessem a intenção imediata ou mediata de criticar determinados aspectos enumerados no ensaio comparativo, mas inevitavelmente seus escritos parecem ter sido vítimas ou criações destes - os quais discernimos através de uma série de questôes semióticas.

Mas eis que, através de todos estes critérios comparativos, percebe-se que a situação hodierna é extremamente agravada com o exacerbamento do capitalismo como prática imperialista e o poder exercido através do uso indiscriminado dos meios de comunicação.

A falácia da Democracia. Pensamentos ineclusivamente incisivos sobre Mídia, Globalização, Capitalismo x Terrorismo

A manipulação da propaganda, das massas, de uma mídia com propagação unilateral -- infames satélites dos quais apenas recebemos a informação, tal como se nos permitem acessar, e louvada seja a internet como exceção a esse fenômeno, através da qual podemos receber e devolver opiniões críticas --, cria verdadeiros monstros em fenômenos de aculturação que muitas vezes são defendidos com perigoso nome de globalização. Manipulação através da qual podemos perceber como efeito colateral inevitável, um despotismo de satélites onipresentes. E quem, com prerrogativas semelhantes às de uma divindade, detém o poder sobre estes? Ora, os mesmos que detém o poder do capital. Quem imagina por quais infames motivos que, desde Paris a Bangkok, de Madrid às Ilhas Virgens, seus "citoyens" prefiram ouvir Madonna ao invés de artistas locais, ou mesmo que estes cheguem a imitar os padrões propugnados por esta, ao invés de valorizarem uma cultura autóctone, que tende a desaparecer? Em nível semelhante dá-se a manipulação da informação, de modo geral e indiscriminado. Bem sabemos que a história é contada pelos vencedores, que também definem heróis e vilões, bem sabemos hoje que a informação é manipulada pelo capital. Passe um domingo em frente à qualquer canal de TV aberta para, inequivocadamente, chegar a tal constatação.

Bem, a manipulação destes e de fenômenos como a globalização, ainda, da Democracia, em mãos de um Capitalismo excerbado, desmedido, desenfreado, torna-se perigoso instrumento para sua (da Democracia) própria deturpação: a Ditadura da Democracia. Democracia que em nome do capitalismo vem sendo reiteradamente usurpada de seus ideais de soberania popular, dos valores últimos de igualdade, liberdade e justiça. O homem deixa de ser a finalidade da Democracia para, nas mãos deste capitalismo, tornar-se um meio para a obtenção dos fins mais inescrupulosos por grupos de privilegiados, a manutenção de um Poder mais forte do que a própria soberania de um Estado - o Capital. Uma ditadura perfeita, tão perfeita que, como diz o amigo RR de Souza, "nada que se possa expressar ou dizer sobre ela surtirá qualquer impacto ou fará diferença". Por isso, ao contrário de outros tipos de ditaduras, esta não apenas não vê problemas, como incentiva a liberdade de expressão, sob pretexto de pseudo liberalismo - aquele que intervém, sem intervir; através do fascínio do capital e o poder do satélite, criou-se um sistema tal de manipulação da realidade que intervir é desnecessário ou mesmo redundante. Apregoa, ela mesma, a prática do "Tô nem aí", da alienação - o que não passa de mais um engodo. Quem tiver cérebro, por favor, não o deixe de usar: não deixe de manifestar sua voz crítica.

O Capitalismo cria seus próprios monstros. Daí o surgimento do Terrorismo, não como manifestação psicopatológica de povos intensamente oprimidos ao longo dos anos, mas como o grito mais efetivo de oposição, como manifestação de uma busca lídima - ou guerra justificada por finalidade tão nobre que não hesitam em sacrificar a própria vida -, por Justiça e Liberdade. Não se engana quem coloca-me como ferrenho opositor ao exacerbamento do capitalismo (senão em uma justa medida), tal como é exercido à luz hodierna, mas não estou, sob hipótese alguma, defendendo o terrorismo, e sim, o colocando como ingrediente neste perigoso jogo, do inevitável encontro entre criador e criatura. Enquanto enfraqueceram e dizimaram índios na América e negros na África, enfraquecendo suas culturas e sua identidade, esqueceram do Islã (ou nunca foram capazes de o subjugar), e este mostra inequívoca resistência. Enquanto a máquina capitalista do Grande Satã, encabeçado por G.W. Bush, dá largos passos em direção a uma Terceira Guerra Mundial, lembremo-nos do que disse Ahmad Hassan Az-Zyat: "A guerra santa (jihad) é uma virtude árabe e uma obrigação divina; o muçulmano deve sempre ter em mente que a sua religião é o Alcorão e a espada... o muçulmano portanto é um guerreiro para sempre." Deveríamos ainda, resumidamente, recordar de algumas idéias às quais propugnava David Hume, há cerca de 250 anos atrás, quando criticava as práticas imperialistas e colonizadoras de algumas nações: Sobre a riqueza de nossos vizinhos, não devemos vê-los como inimigos, como uma ameaça, mas reforçarmos os laços de amizade, vendo nestes como um forte potencial capaz de abarcar nossa força produtiva. Vemos então, como o Grande Satã tem levado tal consideração na acepção mais maquiavélica do termo, pois consuma a prática mercantilista e o imperialismo em voz uníssona, e porque não assume escrúpulos ao impor inúmeros embargos econômicos e políticos às nações do Terceiro Mundo, dizimando suas miseráveis populações, controlando-as através da alienação do capital e dos satélites. Mas eis que esta arma não funciona contra o inexpugnável Islã.

Segundo Delacampagne, sobre o pensamento hobbesiano e o Estado de natureza: "Efetivamente, cada humano, cada corpo, é, antes de tudo, um corpo desejante; e o desejo é, por definição, insaciável. Logo que acabo de desejar um objeto, começo imediatamente a desejar outro, já pensndo em meios de garantir minha sobrevivência - isto é, a satisfação de meus desejos posteriores. Como ninguém nunca está satisfeito, como ninguém é capaz de dizer: 'aqui e agora, deixo de desejar', segue-se o estado natural no qual os homens se encontrarão uns em relação aos outros, se nada nem ninguém os impedisse de desejar infinitamente, só poderia ser um estado de guerra." Percebemos ainda como, a perda de valores e referências de ética e justiça, em nome do capital, aproxima o estado de natureza ao estado de sociedade vigente. Talvez pior, pois se a moralidade e o Direito natural são observado no estado de natureza (Locke), no estado social em que estamos, em propensa hybris, parecemos mais próximos do caos do que de um consenso.

Não parece difícil observar que estamos à beira de um grande colapso social, econômico e político. Há uma crise moral generalizada assolando as estruturas balisares das relações sociais. O Grande Satã feriu mortalmente a autoridade das Nações Unidas ao invadir o Iraque, rompeu com o contrato social assim como fora concebido pelo ideal do liberalismo, e neste momento permanece com suas afiadas garras voltadas para o Oriente Médio, principalmente para o raro sangue negro e viscoso que irrompe vigorosamente de suas terras, o petróleo. A situação é muito mais pungente do que se pode imaginar. Percebe-se o Direito Internacional seriamente ameaçado, e não é difícil imagina que as catastróficas consequências podem assumir amplitude mundial, nível de larga escala. Pelo contrário, esperemos que, ao invés disto, não passe de um grande laboratório, de um balão de ensaios para que a humanidade possa aprender a caminhar, através da racionalidade, em direção a si mesma - o homem como finalidade, como valor último de seu próprio ordenamento.

Por agora, encerramos com a seguinte frase: Quem obstinadamente almeja ou persegue um ideal de Liberdade, por fim o aprisiona.

terça-feira, julho 13, 2004

Camus vs Kafka



    Fiz um breve ensaio comparativo entre Franz Kafka e Albert Camus, respectivamente sobre "A Metamorfose" e "O Estrangeiro", no SoundChaser; resolvi postar por aqui. Quaisquer críticas, correções ou sugestões aos meus beligerantes e patéticos rascunhos são mais do que bem-vindas.

Entre as obras de Kafka, minha preferência dá-se por "O Processo". A Cia das Letras lançou uma série de obras do Kafka, numeradas (creio que uma intenção de lançar uma "obras completas"), com a inestimável tradução de Modesto Carone - Kafka está em excelentes mãos! O Processo, O Veredito/Na Colônia Penal (esgotado), Metamorfose, O Castelo, Carta ao Pai, entre outros. A meu juízo, um dos maiores escritores de seu tempo, a questão existencial que figura em suas obras não é menos genial do que o que pode-se encontrar, por exemplo, em Camus.

A respeito da editora Cia das Letras, é um pouco desapontador perceber que a qualidade gráfica encontra-se em um nível bem abaixo do que geralmente acostumei-me a encontrar nas obras publicadas por esta editora -- ainda que o preço assuma axiologia de excelência editorial! O inestimável legado de Kafka, ainda que tenha encontrado excelente tradução na iniciativa de Modesto Carone, mereceria uma produção gráfica muito melhor do que a apresentada.

Aprofundando a comparação entre Meursault, personagem erigido por Camus em O Estrangeiro, à luz da Segunda Guerra Mundial; e Gregor Samsa, em A Metamorfose, cerca de 20 anos antes, à época de Primeira Guerra, é possível encontrar características, angústias e conflitos comuns a ambos os personagens: a presença do Estado Social Contemporâneo e seus mitos, as relações sociais de massas, a opressão do proletariado, a "metropolização" da sociedade, a anonimização do indivíduo, as injustiças sociais, o alvorecer de regimes totalitários - comunismo, nazismo. Não obstante, há ainda a perda de referências sociais (até mesmo familiares) e, consequentemente, a diluição de valores morais e políticos (a função e inserção do indivíduo na pólis, o decorrente sentimento de inadequação); um certo pessimismo, alienação ou apatia do indivíduo diante do caos das relações urbanas hodiernas; personagens envoltos em situações de dicotomização, esquizofrenia, fobias, transtorno de ansiedade social. Deparamo-nos com uma inexorável busca pela liberdade (a escravidão das convenções e paradigmas sociais), encontrada por Samsa em sua bizarra condição escato-morfológica e seu diminuto quarto; e por Meursault, cuja solidão restringe-se também à um quarto minúsculo e, ao final, quando depara-se com o cárcere, a prisão (onde, paradoxalmente, vê-se livre das convenções). Sobremaneira, talvez como característica mais pungente, indivíduos que perdem o controle do necessário nexo (ou justificação) entre suas idéias, intenções e ações: sem saber "quem sou eu?", mas incessantemente buscando uma resposta à essa questão, encontramos personagens extremamente paradoxais e complexos.

A construção de ambos os personagens, feita da maneiras distintas mas tangenciadas pela narrativa surreal ou desconcertante absurdo, é genial: não apenas refletem as agruras de seus próprios autores, mas tratam-se de verdadeiros tratados sobre a natureza do ser humano e sua existência - portanto, permeando enorme pronfundidade filosofófica -, englobando abordagens psicánalíticas, sociológicas, dentre silogismos diversos, mas principalmente, uma defesa da própria condição de humanidade, um libelo à "humanização" da sociedade. A necessidade de se colocar os valores morais acima dos valores políticos, de elevar a condição do próprio homem acima de qualquer outra finalidade.

Se alguém considera que Kafka não foi um escritor brilhante (sacrossanta heresia!!), como ocorreu em algum momento de nosso debate - e talvez não tenha ele primado efetivamente por excelência estética, mas sim sua escrita calcada na angústia -, basta recordar ainda que A Metamorfose foi escrita no inimaginável intervalo correpondente a menos de um dia! (não lembro no momento em quantas horas uma das obras mais influentes da literatura foi erigida, teria que consultar a sinopse). Conforme foi dito por Renato Roschel (em um dos links abaixo): "Para ler Kafka são necessários alguns cuidados especiais, entre eles, contar com uma certa atenção à maneira com que toda obra se constrói, principalmente seus períodos; estar sempre consciente de que toda a criação literária de Kafka foi dolorida, feita com o intuito de não parecer bonita, de ser, principalmente, uma obra baseada na dor; ficar atento a todos os detalhes do texto, pois em Kafka, até as imperfeições são propositais, ou seja, segundo Theodor Adorno, até 'as deformações em Kafka são precisas'."

Alguns bons ensaios sobre a vida e obra de Kafka pode ser encontrados em http://www1.folha.uol.com.br/folha/almanaque/kafka.htm e http://www.anglicanismo.net/humanas/filosofia/filosofando046.htm

Abraços!

quarta-feira, junho 30, 2004

Venho notificar aos egregíssimi, venerabilissimi, diletíssimi amigos, que o blog retomará as atividades a partir do dia 5 de julho vindouro (uma previsão ideal, não de fato). Trago também a previsão do retorno de meu alter ego ou personagem literário, Mr. Debrou - penso que alguém, como eu, esteja com saudades do pândego "polemizador supra-romântico" - o políticamente correto cansa!! Outrossim, peço desculpas por minha recente ausência às lides internéticas.

beijos às meninas, abraços aos rapazes

vosso

MM

segunda-feira, junho 07, 2004

Esta é para Frank Solari e Richard Powell morrerem de inveja! Um cd autografado pelo "vinman" himself. Eu sei que o Powell daria uma mão para ter um destes! Já o Frank, who cares? ;)




Aqui, uma Washburn N4 sunburst e uma Jackson "aditivada"

domingo, junho 06, 2004

What do "you" want from me?



Deixem-me completar o post...

"As you look around this room tonight
Settle in your seat and dim the lights
Do you want my blood, do you want my tears
What do you want
What do you want from me
Should I sing until I can’t sing any more
Play these strings until my fingers are raw
You’re so hard to please
What do you want from me (...)"

WDYWFM, Pink Floyd

sábado, junho 05, 2004

Palavras abjetas, elocubrações metafísicas cabotinistas e outros diletantismos recalcitrantes



1. ficar
Dicionário Aurélio: fi.car v.t.d. Bra. Gir. Trocar carinhos por período curto, mas sem compromisso de namoro.

Essa palavra popularizou-se, entre outras coisas, por servir de desculpas à vulgaridade. Roberval ficou com a Marcinha, com a Fernanda, com a Paula, e no dia seguinte todo mundo fica sabendo. Resumindo: é um galinha - e as outras três não se dão ao respeito. Uma "atiração" tal que os pontos de encontro, sejam boates, danceterias, barezinhos, transformam-se em prostíbulos e lupinários. O aspecto verbal de "ficar" significa "rodízio de opções". Transitoriedade.

2. date
segundo o Michaelis: datar, namorar.

Essa é tipica de colunistas sociais, os mais bregas e fúteis possíveis - perdoem-me o pleonasmo. Muitas vezes você verá na coluna social: "Roberval dos Santos e sua date estiveram presentes (...)". Sim, o outro ser inanimado não tem nome! É apenas a inominável e descartável criatura que, naquele momento, faz companhia ao Roberval. O aspecto verbal adquirido é similar ao de ficar: temporariedade de estado. Não necessariamente de transitoriedade ou rodízio, mas de algo que está fadado a acabar. Daqui a pouco, prescreve e o Roberval está com outra. Resumindo, o Roberval é um mulherengo. E a sociedade aplaude...!

Bluestation no 8 1/2, especial Pink Floyd



Estava eu indo para o 81/2, é perto de onde moro, então costumo ir a pé. Em determinado momento, parou um carro, achei que fosse alguém perdido, procurando algum endereço, que houvesse deixado o carro apagar ou com algum outro problema. Sim, estou meio atrapalhado da visão, nem reparei. Continuei meu caminho. Daqui a pouco, quase chegando, para de novo, pouco à frente de onde eu estava. Cara#$%, recebi uma cantada de uma criatura!! Fiz que não ouvi e atravessei. Não sei sequer se era homem ou mulher (melhor nem saber), só sei que foi muito engraçado... rsrsrs

O show estava legal, desta vez a Bluestation tocou só Pink Floyd, exceção feita a um cover do SRV, encerrando o show. Infelizmente eles não tocam nenhum Syd Barrett, o repertório aborda apenas um ingênuo Pink Floyd pós Animals (a maior parte concentrada no The Wall). Previsível demais. Quando tocaram Wish you Were Here, aproveitei para ir ao banheiro. "Balaca" demais é uma coisa que me ataca os nervos, principalmente em se tratando de música "pop". "Hey, acordem, vocês não estão fazendo nada de genial"!! Mas há tantas bandas ruins que os cara têm mesmo que serem aplaudidos como um oásis de luz. Afinal de contas, só o fato de trazerem a música do PF com grande competência a incautos ouvidos, já vale a eles memorável mérito. Palmas para a Bluestation.




Mental Fatigue

Cansei em contemplar teu travesseiro, again and again almejando tua face, e triste deparar-me em tua ausência. Cansei ao fitar as paredes da sala e ver tantas lacunas e pregos deixados na parede (tantas quanto em meu coração). Cansei ainda da solidão que o "quarto de Van Gogh" insiste em impingir à minh'alma, beirando insofismável esquizofrenia.

Cansei, triste ao olhar para a pia da cozinha - sôfrego e pueril despertar da aurora - e nela não encontrar teu copo de "Nescau". A escova de dentes, peças na torneira do box do banheiro, sapatos na sala, fazer aquele mingau, ou quando dizias: "faz um carinho nas costas". Cansei da saudade, perceber que agora o "nós" transfigura-se em "eu" e "tu", não ter tua jovial alegria sempre presente, de não mais ter tua poesia em minha vida, entoando sutis cantilenas. O clachè comprado na padaria que dividíamos aos domingos antes do plantão... coisas simples e belas, a beirarem o pueril!

Cansei ao não mais encontrar todos aqueles clichês cativantes e singelos - a beleza nas pequenas coisas - compondo uma quase "klimtiana" colcha de retalhos, perfilando cândido mosaico. Cansei do "não abraçar-te", "não beijar-te", agora inexequíveis momentos, inconfundíveis suspiros e ais, cerrar suavemente meus lábios nos teus, corpos entrecortados ao espelho, despindo adornos, inflamar e durar... sim, a adejar pelo infinito.

Cansei também ao sentir-me incrivelmente só nesta selva de pedras, deparar-me, lânguido e errante, como morto-vivo a ensaiar orações, balbuciar palavras que ao entorpecer da noite parecem destinadas ao jazigo gélido da campa, um nome na lousa, observando o sol morrer ao escutar dobres de sinos.

Cansei das lágrimas percorrendo minha face; angústia, asfixia, encorrem pelo box do chuveiro, junto à água e sabão, banho de longas horas. Acertos, desacertos, minha mente a perfidiar. O insidioso e cortante "aroma de amoras azedas" a desdenhar ao ocaso...

...em paradoxal ontologia, cansei de amar.

Porto Alegre, 30/03/2001.



O tempo é capaz de transformar dores em hipocrisias. E assim ele cura. Parafraseando um amigo, "as pessoas pensam que amam".

Certa vez alguém me disse, nestas exatas palavras: "Qual é a maior qualidade do homem? Amar intensamente alguém, perder essa
pessoa, e conseguir amar uma outra ainda mais que a primeira."
Claro que não se trata de uma "maior qualidade do homem", mas é algo notável. Whatever.

terça-feira, junho 01, 2004

Atualizando as leituras:
Crítica da Razão Pura, Immanuel Kant
Dos Deveres, Marcus Tullius Cicero
Política, Aristóteles
A República, Platão
Noite Na Taverna, Álvares de Azevedo
- junto a Machado de Assis e Lima Barreto, meu escritor brasileiro preferido, escreve com elegância e profundidade ímpares
O Estrangeiro, Albert Camus
- Neste, Camus expõe de forma genial suas angústias e elocubrações existencialistas. Clássico absoluto, leitura obrigatória.

Descobri um link formidável:
Literatura Brasileira em meio eletrônico
significado: mais horas perdidas na net... :-/

Hoje foi dia de dar um abraço na Ritinha pelo níver dela. Flores e um cartão. Interessante como algumas pessoas têm a rara sensibilidade para valorarem um gesto, as flores eram super simples mas a guria adorou!

Triturei um Cup Noodles, daqui a pouco vou no "eight and a half", assistir ao especial Pink Floyd. Não sou fã da Bluestation, mas esse especial é ótimo! Não posso ficar até tarde. Tô saindo agora! T+, bjuss!

segunda-feira, maio 31, 2004

Heldon, la rock progressif française e outras



Quase esqueço de comentar: há link para uma preview da página da Santo Trio no menu lateral.

Tive uma recaída, crisezinha existencial past week. Fiquei quase sem postar no blog, passei o weekend inteiro em retiro, sem sair, sem atender o telefone, só estudando, lendo, ouvindo música, comendo chocolate e "interneteando". Retiro espiritual. Enlightment. Food for Though, food for Soul. :-)

Ouvi Heldon o final-de-semana inteiro (música eletrônica-avantgarde francesa dos anos 70). Liderada pelo guitarrista Richard Pinhas, a audição de Heldon é uma experiência única e inolvidável. Há quem considere a banda como um King Crimson eletrônico, o que não deixa de fazer sentido. Os primeiros discos podem ser definidos como música "ambient", lembrando Fripp/Eno; mas a partir de Agnetta Nilsson (1976), quando passam a apresentar ênfase no groove, percussão, ritmos obsedantes, guitarras caóticas, cosmiché musique, contrabaixo pulsante e longas jams, o bicho pega. Nomes fenomenais do cenário underground/avantgarde francês como Janick Top, Patrick Gauthier, François Auger, Bernard Paganotti, fizeram parte da verve iconoclasta das trincheiras heldonianas.

Pode-se dizer que Heldon é uma pérola do "krautrock" francês, um dos segredos mais bem guardados da história do rock... (afinal, o krautrock é alemão!) rsrsrs

Jogue todos os discos do Tangerine Dream fora e ouça Interface (1978) ou Chronolysé (1978). Puro trance rock. Ouvi praticamente a discografia inteira do Heldon, desde o Electronique Guerrilla (74) aos discos-solo de Pinhas, avec plus un rare EP au vivre: Paris Concert '76. E tem gente que chama tum-ti-tum, techno-pop, de música eletrônica. Claro que é! Mas o velho Karlheinz Stockhausen deve montar num porco, ao pensar que junto com Pierre Schäffer e toda a Vienna school, ajudaram a criar estas baixarias anonimizadas. Pensando bem, acho que não. Stockhausen é um pândego mesmo! Quem compôs "Suite for 4 violins and helicopter", não pode bater bem da cabeça. rsrs

"When I recorded my album in 1973, I really didn't know the German groups. The only unconscious influence I had was Fripp & Eno, before they released their first record. Theirs and mine were released in an interval of one month... The only real influence was the Fripp & Eno tapes we heard before King Crimson's concerts. My conscious roots are rather based on Philip Glass's work, at the time of Music For Twelve Parts - a type of music I've always appreciated a lot, even now."
Richard Pinhas






Hoje foi um dia iluminado, super alto astral. Pela manhã, enquanto tomava um café no intervalo, organizei toda minha agenda, que durante a semana passada, foi para as cucuias.

Agora à noite, encontrei com a Nane, ex-namorada, tomamos um café (pedi com raspas de limão, delícia!). Mais de três anos depois, dividimos a mesma faxineira. Diz a Lúcia Vera (a faxineira), que o sonho dela é ter uma televisão. Bah, ela é super voluntariosa, rasga-me elogios, diz que eu sou o "patrãozinho mais querido e organizado que ela tem" (vamos combinar, menos bagunça, menos coisa para ela arrumar, né?). Ela faz aniversário no dia 10. Combinei com a Nane de, juntos, darmos uma TV 20" de presente para a Lúcia. E ela merece!

A Nane está super bem, bonita, saudável, magrinha. Está com os cabelos da cor natural, castanhos escuros/cajú. Ficou muito melhor do que quando era loira. A Nane loirinha era meio coquete, dicotomizada. Sei lá, as mulheres ficam diferentes quando pintam os cabelos. Freud explica. Ela continua fora da casinha, mas tenho adorações por ela. Depois fomos encontrar o Duda (atual namor dela), o meu "afilhado" Matheus (está grandinho!) e o Tomás, que já vai fazer um aninho. Fiquei felicíssimo, estava com uma baita saudade de todo mundo! O Math faz aniversário no próximo dia 12, diz a Nane que ele me convidou e ainda quer que eu vá jogar bola com ele no dia do níver, vão formar uns times de adultos e crianças! Pena que ele é colorado, fizeram a cabeça do guri! rsrsrs

Bom também foi que, em poucas palavras, a Nane me deu uns conselhos. Tudo o que eu precisava ouvir. Foi melhor do que terapia. :-)






O Marcus hoje descobriu que ele definitivamente tem um tropismo por mulheres de óculos. Também tem um tropismo por mulheres inteligentes. Óculos, de preferência com armação escura, meio grossinha. Dá uma aprência de austeridade, confiança, maturidade, intelectualidade, sei lá. É muuuito sexy! Um charme. Sério mesmo, a mulher nem precisa ser muito bonita.

quinta-feira, maio 27, 2004

La Musique

Dizem que a música ajuda a desenvolver inteligência emocional, sensibilidade. Eu não sei, às vezes sinto-me emocionalmente idiota. Ou não. Será?
Perché ha momenti in cui io non capisco niente, ritengo come un stupido sentimentale! (*)


Este é o primeiro movimento de uma Piano Sonata que compus em 1998, em sua versão original (arranjos rudimentares e ainda sem anotações de dinâmica no score). Está uma caca, mas é a única versão em mp3 que tenho.
-> Piano sonata, 1st mov. Largo <-
Obs: se as imagens não estiverem carregando, a música também não carregará. É problema com o servidor. Tente mais tarde, quando as imagens estiverem carregando. Obrigado pela compreensão! If the images doesn't load, the music will not load. Please try again later. Thanks!
8 ½ Bar apresenta:

Dia 01, terça-feira, às 23h:
Terça Clássica 8 ½, Clássicos do rock’n’roll

"Especial Pink Floyd"
Com a banda "Blues Station"

Couvert: 6,00
Consumação isenta

Aureliano de Figueiredo Pinto, 984, Cidade Baixa, Porto Alegre-RS
Telefone: 3286.1268
Para informar que o Marcus deu uns amassos no doggy dele e está bem melhor. Vai dizer que não é a coisa mais amassável do mundo?

sábado, maio 22, 2004

Diários de Motocicleta



Fui ao cinema com a Camila hoje à tarde. Diz ela que eu ando abatido, preciso me animar, concordo. Mas não cabe aqui explicar o porquê. Fomos no Guion assistir ao Diários de Motocicleta, de Walter Salles.

Filme baseado nos livros "Notas de Viaje", de Ernesto Guevara, e "Con el Che por América Latina", de Alberto Granado. Felizmente não precisei utilizar as legendas, pois eu estava enxergando muito pouco, mesmo dentro do cinema tive fotofobia.

Voltando ao filme. Um aspecto assaz interessante é que ele não se detém a embeberar-se de matizes ou ideologizações políticas. Nesse ponto, o filme chega a ser ingênuo. Não acerca-se também da história do ídolo pop, das inúmeras bandeiras e camisetas, ou do líder revolucionário. Segundo Salles, "O intuito do filme era falar do Ernesto antes de ele se tornar o Che".

O relato de uma aventura vivida por um jovem estudante de medicina, Guevara (interpretado por Gael García Bernal), e seu amigo, Alberto Granado (Rodrigo De la Serna), que ao empreendimento de uma viagem de motocicleta à fímbria da América Latina até o coração da Amazônia peruana, no ano de 1952, não têm maiores ambições além do prazer de viajar e o senso de desafio. Entretanto, para ambos, será uma viagem transformadora. Momentos cômicos são porporcionados pelo desastrado condutor, Granado, e os inúmeros tombos de moto, carinhosamente apelidada de "La Poderosa". Diante das instigantes descobertas e realidades que a eles se apresentam no decorrer da viagem, uma América de contrastes e injustiças, as vidas de Guevara e Granado nunca mais serão as mesmas.

É verdadeiramente uma visão bela, romântica, humanista, compassiva; uma encarnação palpitante da história relatada e vivenciada por um juvenil Ernesto Guevara Serna, o Che. Paisagens lindas são apresentadas durante o filme, Patagonia, Cordilheira do Andes, Machu Picchu, Cuzco, Valparaíso. Os personagens são cativantes. A estética do filme é cult, a belíssima fotografia traz a assinatura de Walter Salles e Eric Gautier.

Ainda que Che seja apresentado quase que de forma pura, angelical, imagino que mesmo mentes mais reaccionárias provavelmente render-se-ão ao talento aduzido no filme dirigido por Salles. Reverenciado em Cannes, não será o melhor filme do ano em sua categoria, mas é imperdível.

sexta-feira, maio 21, 2004

Coffee break
Hoje saí da terapia, por volta das 18h, diretamente para uma happy hour na Pe. Chagas. Coincidentemente, encontrei o desembargador Breno e o Fabiano bebericando seus repectivos cafés expressos, aproveitei para colocar as conversas em dia. Na troca de figurinhas, enquanto sorvendo um bom cortado, contei sobre a história da minha cirurgia. O pessoal ficou muito feliz. É sempre um privilégio desfrutar de insígnes companhias.

Música
Agora há pouco descompensei e ouvi o Facing The Animal, do Malmsteen, no último volume. Há muito tempo não ouvia algo pesado, de vez em quando é bom variar. Power to the metal! Depois ouvi o Requiem K626, de Mozart. Música densa. Em especial, aprecio o mov. IV, Rex Tremendae Majestatis.

Sobre o Requiem:
    Mozart iniciou esta obra em 1791, seu último ano de vida, a pedido do Conde Walsegg - que descobriu-se mais tarde, desejava fosse o Requiem executado como obra de sua criação. Mozart, vítima de tifo, não viveu o suficiente para terminá-la. Deixou instruções a um de seus tutelados, Süssmayer, de como proceder com os movimentos incompletos, dando este, a pedido da viúva, os últimos retoques na criação do mestre.

    Mozart teria dito "Não estarei aqui por muito tempo, alguém me teria envenenado, estou convencido disso." Ironia do destino, o Requiem de Mozart, de forma emblemática, selaria os últimos dias de vida do próprio gênio.

1000 visitações desde jan. 2004
O blog que eu "matei" dobrou esse número. Pelamordedeus, quem eh que lê isso aki? Vcs naum tem mais nada pra fazer naum? (detesto esse internetês!! :P)


Atualizando


Tróia
No sábado passado fui assistir ao Tróia, de Wolfgang Petersen. Saí com a Eleonora, o Sandro e uma mocinha que conheci ali, a Denise, fomos no Cinemark. Vieram todos de Pelotas para passarem o weekend em Poa.

Sobre o filme: não é ruim, mas também não é bom. Muito aquém do que eu esperava, é simplesmente irritante. Há cenas em quem me contive para não vaiar. Aquiles, interpretado por Brad Pitt, aparece, a meu juízo, como um herói desprovido de virtudes. Detentor de enorme força e destreza, um poder descomunal, apresenta-se arrogante, irresponsável, imprudente, intolerante, tolo, fútil. É melhor que nem tentemos enumerar as inúmeras imperfeições de nosso herói. Um herói sem honra. Se corajoso, bravo e destemido, é nada mais do que o mínimo que poderia ser esperado de alguém com tais poderes. Não sabe amar. Egocêntrico, luta apenas pela que seu nome seja eternizado e glorificado na história da humanidade. Enfim, ao contrário de Hector (não irei deter-me em análises dos outros personagens), uma epítome de tudo o que um homem bom, justo e prudente não deveria ser.

Nosso pérfido e incauto "herói" comete o erro mais grave que um personagem da mitologia grega poderia cometer: desafia a ordem dos deuses, decepando prepotentemente uma imagem de Apolo. Na tragédia grega, o homem não detém a capacidade de modificar seu destino, pertence ao divino. Aquiles, inexoravelmente distante do paradigma grego de phronimos, perde-se na hybris, na desmedida, no descontrole. Perde-se de sua finalidade e papel como Ser, a sua função no Cosmos. Aquiles conhece o Caos. Só consegue desenvolver algumas virtudes, como misericórdia e amor fraterno, através do sofrimento, da perda, da dor. A cena em que seus seguidores e combatentes estão em batalha, e em seguida um deles vem a Aquiles anunciar a morte de seu sobrinho, é ridícula. Aquiles sai de dentro de uma cabana, ébrio, entregue ao hedonismo, expressa um sorriso fútil, para receber o anúncio da morte de seu tutelado.

O filme: A produção sonora é boa, o figurino também, a cenografia deixa a desejar, os efeitos especiais são muito bons (qualquer filme em que não se notem os efeitos especiais, é sinal de que são bons). O filme até respeita a história original, da Ilíada de Homero, apesar de solapar a importância da figura das divindades do Olimpo. Mas qualquer um que a tenha lido sabe que o cerco a Tróia durou 10 anos. Entretanto, pasme você, leitor: o filho de Hector, bebê no início do filme, ainda é o mesmo bebê no final!!

Ah, a atuação de Brad Pitt é bizarra, vergonhosa de tão fraca. Há muito tempo não via uma atuação tão ruim, chega a ser divertida. Ipsis litteris, uma queimação de filme. O cara está sarado, aditivado, anabolizado e tal, mas serviria mais para uma continação de Conan do que qualquer coisa séria. Não, Schwarzenegger seria demais. A atuação de Brad Pitt está para Chuck Norris e asseclas.


A meu juízo, o filme em momento nenhum consegue cativar ou envolver, todas as tramas apresentam-se lânguidas, tênues, as atuações são pífias, os diálogos fracos, os atores parecem que não conseguiram "entrar" nos papéis desempenhados -- salva-se a magnífica atuação de Peter O'Toole; há centralização demasiada em poucos personagens, em detrimento de uma idéia de uma interatividade com os papéis coadjuvados, uma indispensável visão sócio-política é prativamente ignorada; carente de complexidade, há lacunas enormes de continuidade e coesão no roteiro. Pouco convincente, todos os aspectos intrínsecos ao filme apresentam-se, de modo geral, muito artificiais.

Bom, teve gente que gostou. As pessoas, cada vez mais utilitaristas, sabem cada vez menos distinguir entretenimento de Arte. Eu gsto de uns filmes bobinhos, de entretenimento, mas essas super-produções americanóides não me atraem de maneira alguma. Não há como comparar Tróia com Gladiador, foi-se também o tempo de filmes como Spartacus e Ben-Hur.

Ne plus envisager l'art comme une distraction, mais comme un sacerdoce.
Jean Cocteau




Sobre a noite:
Carruagens e abóboras

Depois do cinema, fomos jantar na Fratello. Fiquei encantado com a Denise, bonita, olhar penetrante, madura, elegante, inteligente, encantadora, simples, conversa interessante, movimentos suaves, parecia flutuar. Quando percebi, quem havia saído do chão fui eu. Ao pedir a pizza, foi engraçado: ao mesmo tempo, uníssono, pedimos "Siciliana" (muita coincidência, com dezenas de pratos no cardápio!). É o tipo da pessoa que, se pudesse encontrar de novo, por mais trinta minutos, eu ficaria caidinho. Discretamente, ela me deu o maior mole. Elegância é isso. Se ela morasse em Poa, a convidaria para sair mais vezes, mas a guria é de Pelotas (significa: dificilmente a verei de novo). De novo!! rsrsrs

Daí que percebo claramente o que significa o tal arquétipo feminino de excelência. Já tenho pre-definido o tipo de pessoa que me atrai, tornou-se algo muito específico. Por isso é tão difícil que eu tenha uma queda por alguém, mas quando juntam-se os elementos, é fácil, também súbito, intenso, forte. Algumas pessoas se assustam com isso, porque desconhecem essa peculiaridade. Em pouquíssimo tempo consigo captar características que mais me agradam em uma pessoa, ler nas entrelinhas, por um olhar já consigo perceber o que há "lá dentro", e talvez antecipe meus próprios sentimentos. Sou capaz de gostar muito de uma pessoa, em pouco tempo. (foi assim que eu gostei d'última menina, quebrei a cara - foi uma das coisas mais desapontadoras e frustrantes que já me aconteceram).

Bom, estava a fim de escrever sobre isso. Não vejo problema nenhum, afinal, o pessoal apronta horrores e eu não fico com ninguém faz uma cara de tempo. Recebo um monte de propostas indecentes, seria muito fácil, mas não é isso o que eu quero. Se fico carente, e daí?

Blazz


O show da Blazz estava SENSACIONAL. O 81/2 está também de parabéns. Mesas melhores, sanitários limpos, vê-se o palco de maneira satisfatoria de qualquer lugar de dentro do bar, excelente iluminação. Enfim, dei pessoalmente os parabéns ao dono, ficou felicíssimo. Conversamos bastante, fiquei de voltar mais vezes. Saí sozinho, encontrei uns conhecidos, entre eles o Alex que está tocando na Baby Blues.

Ah, a Blazz: Tocaram umas cinco músicas de John Coltrane (ops, eu disse C-O-L-T-R-A-N-E... preciso ajoelhar-me cada vez que é pronunciado esse nome!!!). Do velho Trane, tocaram: Equinoxe, Afro-Blue, Impressions, Blue Train e Straight No Chaser (de Miles Davis e Trane). Quer mais? Footsteps, Wayne Shorter. Mais? Take Five, Dave Brubeck. Ainda mais? Freddie Freeloader, Miles Davis. Eu conhecia o repertório inteiro. Enfim, um ABSURDO de bom!!

Conversei com o pessoal da banda, Salvadoretti e Paulo Müller, no intervalo e no final (lá pelas 5 da manhã). Acabei bebendo além da conta, mas não fiquei "alto", apenas a ressaca foi braba. É, aquela quarta cerveja antes de ir embora foi desnecessária.

Escrevi uma resenha sobre a Blazz, já há bastante tempo (não é das minhas melhores... rs):
Sexteto Blazz - Gemius (2002)

Sai para me divertir e curtir a música, fiquei plenamente satisfeito. No dia seguinte, sem querer, dei uma baita queimada no namorado da minha prima, na frente dela. Perguntou-me ele: "E aí, rendeu a noite, comeste alguém?" (fazendo um gesto obsceno). Respondi: "Eu saí para me divertir. Se eu fosse sair com esse tipo de intenção, ou me sentiria um crápula, ou voltaria sempre deprê e frustrado para casa". Não foi por mal, mas soou como "se tu sais de casa com esse tipo de mentalidade, eu não tenho nada com isso". Minha prima lançou aquele olhar fulminante para o cidadão, fez um comentário irônico. Reinou um silêncio por alguns instantes, mas depois voltou tudo ao "normal".

quarta-feira, maio 19, 2004

8 ½ bar apresenta

Dia 19, quarta-feira, às 23h:

"Baby Blues"

Show de blues com Oly Jr. (voz e guitarra), Silvinha L.P. (Voz), Alexandre Gaspo (harmônica), Duda (guitarra), Nando (bateria) e Rafael (baixo).

Couvert: 6,00
Consumação isenta



Vou lá ver o Alex fazer umas firulas na harmônica...
Depois comento o show da Blazz, o final de semana, coisas boas, outras nem tanto... :-)

quinta-feira, maio 13, 2004

O Presidente e a "borracheira"


NYT diz que álcool prejudica desempenho de Lula

O grande problema que percebo, de forma mais crítica, aguda, proeminente nessa história toda, é o fato de Lula ocupar, simultaneamente, as Chefias de Governo e de Estado. Uma calúnia ou ofensa ao chefe de Estado é considerada falta gravíssima, uma atitude subversiva contra a soberania da Nação, não contra a pessoa que a ocupa. Se estivéssemos em um parlamentarismo (a exemplo da Espanha), onde o chefe de Estado conta com autoridade moral e raramente se envolve em política, seria muito mais "aceitável" criticar um Lula, chefe de Governo.

Explica-se o posicionamento do Executivo. De qualquer forma, a meu juízo, a razoabilidade exigiria que fosse movido um processo indenizatório por danos morais contra o jornal (NYT) e, por conseguinte, o jornalista responsável pela matéria (Larry Rohter) - não sua expulsão, o que seria um exagero, uma desmedida. Quiçá um atestado de autoritarismo e bebedeira (hic!). Brindemos ao presidente. Cheers! Prosit! Kampai! Santé! Ergo bibamus!

Segundo Voltaire, em Prix de la justice et de l’humanité: "Um escrito difamatório parece punível à proporção do mal que pode fazer. Se é necessário temer que inspire sedição contra o soberano, deve ser restringido por uma grande penalidade, e tal foi frequentemente a jurisprudência romana. Se a difamação inside apenas sobre o vosso gosto, sobre a vossa fraqueza, sobre o vosso ridículo, evite intentar um processo, por medo de ser mais ridículo ainda."

Vivemos mesmo em um Governo de ágrafos e apedeutas.




8 ½ bar apresenta - Dia 14, sexta-feira, às 24h:
"Sexteto Blazz"
Show de jazz contemporâneo, com Adelamir Neto (contrabaixo), Luciano Bolobang (bateria), Franco Salvadoretti (flauta transversal), Paulo Müller (sax alto), Vanderlei Fontanella (sax soprano/tenor), Leandro Hessel (teclado)
Couvert: 6,00
Cons. masc.: 10,00 Cons. fem.: 5,00

EU VOU!!!!





Atualizando

Sábado. Ah, o níver da Ana: estava jóia!! Ainda cauteloso quanto aos meus olhos, cada vez que vinha a fumaceira de gelo seco, eu fugia para a sacada. Creio que haviam umas 70 pessoas. Quanto às amigas que ela ficara de me apresentar: tsc, tsc, tsc... umas mafiosas, não valem nada! A única pessoa com quem foi possível manter um diálogo até interessante foi a irmã do André, que deve ter uns 18 anos (sure not of my kind... rs)! No domingo almocei no Barranco, com meus tios. É o único lugar da face da terra onde eu faço questão de comer a salada de maionese (eu nem gosto de maionese!). Ma-ra-vi-lha!!!

Quarta-feira fui na terapia, foi legal. Concluí que, diferente-te do que sugerem alguns posts que coloquei recentemente, eu de maneira alguma posso generalizar acerca de conhecer novas pessoas, ainda que baseado em experiências recentes. Por mais frustrantes que tenham sido, por mais que tenha enfrentado pessoas imaturas e limitadas. Não posso ficar tímido, pusilânime, deixar de acreditar, porque existem sim pessoas decentes no mundo. Exemplo próximo: minha vizinha é decente e uma gracinha, ainda por cima abre o maior sorriso quando me vê (mas eu não correria o risco de perder nem minha privacidade, nem minha vizinha... rs). Porque eu ando com receio de conhecer pessoas. Durante a terapia: "Há um murmurinho por aí de que estão faltando homens na praça" (N. provavelmente a reclamação que ele deve ouvir durante as sessões... rs). "Tu és o tipo de pessoa que tens tudo para dar certo. Mesmo com essa tua timidez, tuas chances são ótimas!". Ele me diverte... rs




Na madrugada de ontem conversei com minha amiga Patty, que está em Miami há vários anos. 15.000 km de distância, uma das pessoas mais doces, bonitas e corretas que alguém poderia conhecer.
"Tu es bemmmm chegado numa guriazinha ruim, malvada e que nao te merece. Deve ter a maior mulherada correndo atras de ti ai. E' so' pq detesto te ver triste por estas meninas que nao te merecem."
"Foste a unica prova que tive de que ainda existem homens bons, principes, gentlemen...ja' havia perdido a esperanca. Vc me ensinou que ainda existe homem bom no Mundo. Mas tb me ensinou que nao se pode ser boazinha, de boa fe', que ha' que ser uma bruxinha. Este gatinho ai, so' gosta de gente ma' :P".

Eu tenho gostado das pessoas erradas. Mea culpa.


Meu blog agora tb tem seção de quadrinhos... rs

segunda-feira, maio 10, 2004

Le meilleur des mondes possibles

Fiquei super gabola com uma mensagem que recebi ontem... Convivi mais de um ano com a Cris, entre 2002/03, em uma antiga lista de discussões onde eu era moderador. Juntos enfrentamos alguns encrenqueiros na lista, mas tudo ficou bem. Foi uma amiga e mãezona virtual também!
Bom perceber como amizades persistem à distância e ao tempo (daí a imagem de Salvador Dali). Quando eu for a Sampa, prometo ligar sim!

Fiquei muito feliz com seu contato pq sempre tive excelente impressão de vc, e o considero um amigo.
Aliás, qdo vier a SP, por gentileza, me ligue pq eu gostaria muito de recebê-lo bem. Acho que mesmo virtualmente a sensibilidade nos permite perceber as boas pessoas e seu conteúdo. E em experiências ruins, qdo expomos o que temos de pior, vc expôs muitas qualidades e um caráter muito amistoso e agradável.

Enfim, não perca contato, pq gosto muito de vc.

Um beijo,
Cris




Quid est veritas?

Não sei se sou exigente demais ou sensível demais, às vezes acho que sou rigoroso demais comigo mesmo...!!! Exigente? Gosto de pessoas simples, de coração humilde. O fato é que eu não consigo encontrar uma pessoa com valores semelhantes aos meus. Às vezes digo que não consigo mais ficar com uma pessoa sem estar emocionalmente envolvido, que nunca traí ninguém, as pessoas só faltam rir na minha cara. Não sou de hipocrisias. Eu sou o tipo de pessoa que vai estar sempre ali, com quem as pessoas sempre podem contar, mas dá vontade de sumir. Ser diferenciado dá nisso.

Nesse mundo onde ser o "errado" é tão mais fácil e comum; e ser o "certinho" é "queimação de filme", não sei se é uma benção ou maldição. Isso me aborrece, às vezes eu fico muito triste mesmo, perco as esperanças e a capacidade de confiar nas pessoas. Esse tipo de sentimento é que arrasa minha auto-estima. Porque, por mais que eu seja um cara bonito, afetivo, inteligente, sensível, companheiro, interessante, divertido, íntegro, etc, acabo achando que vou ficar sozinho. Não estranhe quem me encontrar niilista e desiludido. (Parece que meu blog está entrando em uma fase de "desabafos", não gosto nada disso.)
"We need someone who will fly with us, not drag us down."

sábado, maio 08, 2004

Recebi esta mensagem, adorei. Só que eu não descobri quem escreveu...!

"Sempre que posso leio o teu blog. Dou algumas risadas com ele,e fico triste por causa dele tb!Espero que vc encontre a sua garota "molico"!Bjo pra vc e o Feijao!!"

Minha auto-estima esteve muito baixa há algum tempo atrás, peço desculpas se tenho colocado mensagens como esta. Pode parecer narcisimo, mas afinal, o blog é meu. Tenho valorizado muito demonstrações de carinho. Eu não estava acostumado a ter auto-estima tão "em alta" como agora!

O problema é que às vezes eu fico em dúvidas como as pessoas interpretam meu blog, pois invariavelmente elas têm a tendência a julgar antes de conhecer. São coisas assim que fazem eu perder a confiança em conhecer alguém, ou duvidar, ou não querer conhecer mais ninguém virtualmente. Talvez a única pessoa decente mesmo que eu já conheci foi a Júnia. Nela eu confiaria cegamente, tinha um coração de criança. Mas além dela morar noutra cidade, hoje eu não voltaria. Ainda que ela diga que nunca mais irá encontrar um cara como eu (o que me deixa triste, pois eu quero vê-la super feliz). Não deu, não deu.

Sei lá, talvez eu devesse cair na galinhagem, como todo mundo faz, cansei de ser certinho. Cansei mesmo. Levar sentimentos a sério é uma carga, um ônus muito grande, principalmente em uma sociedade que não valoriza isto, privilegia um mundo de concreto e asfalto, individualismo, em detrimento de sentimentos e afetividade. Mas "ser lobo entre as ovelhas é muito fácil", por isso me considero uma pessoa de tanto valor. Tenho orgulho de ser assim, não mudaria.

Estar sempre tentando agradar todo mundo também é uma barra, priva-me um monte a liberdade. É por isso que tenho pensado tanto em aposentar meu blog, definitivamente, por mais que eu goste deste espaço. Provavelmente o faça tão logo ocorra a segunda cirurgia.

Bom, estou atrasado, ainda tenho que descer com o Fê, não quero perder o níver da Ana. Ela diz para eu ir, que "vai me apresentar umas amigas bem legais e gatíssimas". Ta', estou chateado hoje. Ah, qualé, deixa eu me divertir... não tenho namorada nem nada a ficar devendo para ninguém! Vai ficar me julgando também?

Perdoem meu desabafo, é algo que vem acumulando já há bastante tempo, não é nada pessoal.


"Never judge a man until you walk a mile on his shoes".
Indian proverb

"A dúvida pode ser um estado desconfortável, mas a certeza é um estado ridículo" Jean-Marie Arouet, Voltaire

"Quando as coisas mudam, eu mudo. E você, senhor?"
John Maynard Keynes

"Enquanto não conheceres a certa, te diverte com as erradas".
Lúcia, minha amiga

sexta-feira, maio 07, 2004

News

Hoje tive uma notícia muito legal. Fui em um escritório de advocacia tratar de algumas coisas, e conversando com uma conhecida que é sócia de lá, disse-me ela: "tu estás fazendo Direito, né? Quando abrir estágio aqui no escritório, aparece aqui que a gente te chama."Foi muito, muito legal mesmo. Ela disse isso com uma simpatia e sinceridade enorme. O pessoal lá é amigável, sério e competente. Curioso é que não fui eu quem tocou no assunto e tem gente se matando para conseguir uma oportunidade. Lembrei de quando eu fazia computação e um colega, do nada, veio oferecer um emprego. Eu devo passar uma impressão muito boa para as pessoas. Sério mesmo, porque será que todo mundo me adora? Nem tanto, ninguém é unanimidade... rs





     Jantei naquele fast food japonês que há no Praia de Belas, depois fui ao cinema, assisti ao Van Helsing: fraco mesmo. Uma cacaaaa!!! O melhor do filme foi o pacotinho de Bib's crocantes que devorei antes mesmo de iniciar. Até a produção sonora é ruim. Asséptico demais no que diz respeito à verossimilidade das cenas de violência, pudico demais nas cenas que deveriam ter algum erotismo, efeitos especiais fracos, parecia mais um videogame do que uma produção de cinema. Pior que os novos segmentos de Star Wars, entretenimento para pré-aborrescentes.

     Não houve perdão sequer para um cliché violento usurpado de "A Dança dos Vampiros" (Fearless Vampire Killers), de Roman Polanski: a famosa cena do vampiro dançando com a mocinha em um luxuoso salão de baile. Quando ambos passam na frente de um enorme espelho, surpresa: de todos os casais dançando, somente a imagem dela é refletida. Todos os outros presentes são vampiros. A diferença é que Polanski é genial!

Ontem fiquei até as 2 da manhã acertando a página da Santo Trio. Está ficando bem legal, feita 100% notepad. Atrasou bastante por causa da minha cirurgia, também pela demora em me entregarem o material que eu precisava. Da próxima vez eu faço em Flash, prometo. Terça-feira que vem o Marcello vem aqui para a gente acertar os detalhes finais, disse que vai inscrever a banda e a página no prêmio Açorianos... o que significa que ele gostou mesmo! rs





Uma coisa que eu acho sensacional e valorizo muito é receber manifestações de admiração de pessoas admiráveis, ou receber elogios de pessoas elogiáveis. Fico absurdamente feliz. Dá vontade de postar aqui todas as coisas legais que recebo.

Escreve meu tio Joaquim, lá de Curita:
Querido Marcus: O bordado da nossa vida é muito prolongado, porque nós vamos e voltamos indefinidamente. Quando êle está pronto, nós pairamos para sempre. Deus pinta paisagens maravilhosas por linhas tortas. Olha para o teu interior e verás.
Um abraço e um beijo do tio Joaquim


Apesar de tudo, estive meio chateado hoje.

(...) "dias há que n'alma me tem posto
um não sei quê, que nasce não sei onde,
vem não sei como, e dói não sei porquê.
"
Luís Vaz de Camões

quarta-feira, maio 05, 2004

A boa notícia de hoje é o retorno do 8 1/2 bar, reinaugura na próxima sexta-feira. Um dos mais fumacentos pubs de Poa (também um dos piores sanitários!), em novo endereço (espera-se pelo menos a existência de um banheiro exclusivo para as moças!).8 1/2 bar
Aureliano de Figueiredo Pinto, 984, Cidade Baixa, Porto Alegre-RS
Telefone: 3286.1268


Decidi algumas coisas hoje: vou voltar a fazer academia, aprimorar meus conhecimentos em francês e italiano (inclusive conversação), voltar a fazer concursos. O próximo da lista é no dia 16 de maio. Técnico Judiciário, para o TRF.




Atualizando minha lista de leituras:

O Mito do Estado, CASSIRER, Ernst
Latim, Gradus Primus. Curso de Latim. RÓNAI, Paulo.
Intitvtionvm Liber Primvs. IMPERATORIS IVSTINIANI (finalmente encontrei uma versão bilíngüe, latim/português)
De Repvblica. Marcvs Tvllivs Cicero (e-book)
O Espírito do Direito Romano. IHERING, Rudolf von
O Tribunal Constitucional como Poder. SOUZA Jr., Cézar Saldanha
Consenso e tipos de Estado no Ocidente. SOUZA Jr., Cézar Saldanha


O livro de Cassirer, escrito em 1945, à luz do nazismo e da Segunda Guerra Mundial, é sensacional. Uma análise excepcional de Teoria Política, o contratualismo, o pensamento político ocidental, desde a antiguidade aos tempos modernos; o Estado totalitário no séx XX, as origens do nazismo.

Hoje eu encontrei meu pai, jantamos e depois fui levá-lo na rodoviária (bah, acho que poucos lugares conseguem ser mais melequentos que aquela rodoviária, vamos combinar!). Eu estava com saudade, não o via desde fevereiro. Na despedida ele me deu um abraço, vi que o olhar dele queria dizer alguma coisa especial. Eu nunca havia visto aquela expressão no olhar dele antes, um sentimento profundo. Foi um "eu te amo" sem palavras. Quando entrei em casa caiu a ficha, fiquei bastante emocionado. Puxa, o cara me fez chorar. Se estou escrevendo isso, foi algo importante mesmo.

Ele insistiu em me convidar para ir a Pelotas no final-de-semana, domingo é dia das mães, mas no sábado tem níver da minha prima, a Ana. Diz ela que vai dar uma mega party, acho que vai ser muito bom que eu vá. Estou meio dividido ainda, talvez eu faça as duas coisas. Fiz uma brincadeira com minha prima: "ah, tivestes que escolher entre ir à Disney ou dar uma festa, né? Excelente escolha, eu prefiro a festa!".

Bom, vou dormir, o travesseiro me chama. Tenho duas provas amanhã, tenho que acordar cedinho e descansado.




Mais uma foto da Viação S. Joaquim

domingo, maio 02, 2004

Há algum tempo que não contribuo com alguma recensão para o Soundchaser. Esta foi a última, estou devendo!! :-)

Aktuala - Aktuala (1973)

Introdução

    Eis uma banda que em nada soa como uma sonoridade peninsular típicamente italiana. Com características que remetem à música étnica árabe e maghreb do norte africano, escalas exóticas, música de antiguidade, mesclados a elementos de freejazz, psicodelia, música experimental avantgarde e instrumentação não usual -- incluindo bouzuki, balalaika, maracas, tamburim, oboé, saxofone e flauta --; Aktuala, com efeito, soa extremamente distante de um típico progressivo italiano. Excetuando-se as injeções de freejazz, notam-se pouquíssimos resquícios de cultura ocidental.

    Há que ressaltar algo que considero uma qualidade bastante peculiar e importante, de que Aktuala apresenta-se como uma banda assaz original, com uma prerrogativa de contracultura, que absolutamente não soa italiana de todo ou mesmo parcialmente. É mais fácil associá-la ao krautrock, à cosmiche musique, obras como Malesch dos Agitation Free, outras como Third Ear Band, Ravi Shankar ou aos Shakti de John McLaughlin, do que a qualquer banda italiana conhecida.

Breve relato biográfico

    A formação da banda deu-se por volta de 1972, em Milão, com núcleo no flautista Walter Maioli e o saxofonista Daniele Cavallanti. Com os percussionistas Laura Maioli, Lino Vaccina e o guitarrista Antonio Cerantola, a banda então obtém um contrato junto ao legendário selo italiano Bla-Bla, lançando em 1973 um disco homônimo -- há muito fora de catálogo. Com músicos extremamente competentes, trata-se de uma 'senhora banda'.

    Diferente-te de teatros ou lugares usuais de concerto, a banda preferia aparições sempre em lugares públicos e inusitados, verdadeiras epifanias. Em 1974, com o álbum La Terra, há registro de uma aclamada apresentação no Teatro Uomo, em Milão. Há neste momento algumas mudanças na formação, com as saídas de Laura Maioli e Vaccina, sendo substituídos pelo percussionista turco Trilok Gurtu. A banda radica-se então no Marrocos, gravando neste mesmo país, em 1975, o derradeiro disco, Tapetto volante, lençado no ano seguinte e creditado como um estilo direcionado à world music. Após o final da banda, Maioli continou seus experimentos em world music.

Aktuala, O disco

    Aktuala traz neste trabalho um disco intenso, de excelência percussiva raramente obtida, capaz de criar climas de um trance tribal obsedante, ou em momentos de extrema introspecção, ao qual as músicas parecem adquirir propenso caráter nirvânico, onírico, de sublimação, uma sonoridade instintiva, primal, naturalista.

    Trata-se, a meu juízo, de uma das melhores e mais criativas bandas italianas que já ouvi, entre as poucas que continuam a me impressonar até hoje, quiçá um óasis em meio ao marasmo d'um panorama cerceado por tanto romantismo e melodrama na bela canzona italiana. Aktuala passará muito longe de uma música acessível, trata-se de um belo exemplo de música genuinamente criativa, bem executada. Sob a luz desta égide, Aktuala deixa um importante legado, como um fenômeno ímpar e genial ao progressivo transalpino.


Músicos:
Walter Maioli - flauta, harmonica, oboe, bouzuki, balalaika.
Daniele Cavallanti - saxofone.
Antonio Cerantola - guitarra acústica.
Lino "Capra" Vaccina - percussão.
Laura Maioli - percussão.

Faixas:
1. When The Light Began
2. Mammoth r.c.
3. Altamira
4. Sarah' Ngweha
5. Alef's Dance
6. Dejanira


publicado em 30/09/2003

(Peço desculpas se tenho escapado ao aspecto fortemente intimista e pessoal que permeava meu blog, de fato prefiro publicar idéas do que tornar meu dia--a-dia um "personal Big Brother") ;-)

Books

  • CHESTERTON, G. K.. Ortodoxia
  • CLAUSEWITZ, Carl von. Der Krieg
  • COLERIDGE, S. T. Biographia Literaria
  • EVOLA, Julius. Men Among the Ruins
  • GUDERIAN, Generaloberst Heinz. Panzer Leader
  • GUÉNON, René. The Crisis of the Modern World
  • JUNGER, Ernst. Storm of Steel
  • SCHMITT, Carl. Der Begriff des Politischen
  • SWIFT, Jonathan. Panfletos Satíricos

Fave music:

Syd Barrett's Pink Floyd, Cream & Clapton, King Crimson, Univers Zero, Heldon, Faust, Magma, Mahavishnu Orchestra, Miles Davis, Astor Piazzola, Frank Zappa, Marty Friedman, Al Di Meola, Jefferson Airplane, Led Zeppelin, Funkadelic, Allman Brothers, Blue Cheer, Beatles, U2, Chrome, Velvet Underground, The Stooges, John Cage, Villa-Lobos, Beethoven, Bartók, Stravinsky, Bach... & Coltrane, Coltrane, Coltrane, C-O-L-T-R-A-N-E-!

E SLAYER, PORRA.

Pleonasmo


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O Autor

O homem só será capaz de atingir sua racionalidade plenamente quando for capaz de despir-se de tudo o que lhe deveria ser abstruso, principalmente os adereços da ignorância e do preconceito.

Plus au sujet de moi: Vous la saurez en temps voulu... Ou peut-être vous ne saurez jamais... Qui sait? Ah, arquétipos: tropismo por mulheres de óculos.


"O casaco de Arabela Tá com bosta na lapela É bom, mas está borrado. Veio o inverno, veio o frio, O casaco ainda serviu, Borrado não é rasgado." Bertolt Brecht


Humor: Les couleurs du chat peuvent changer.